Jobs to be Done: entendendo a dor do usuário por uma nova ótica

Era fevereiro de 2013 e eu cursava o quarto e último semestre do meu MBA na Harvard Business School quando me deparei com a teoria que mudou minha forma de enxergar e trabalhar com desenvolvimento de produtos. Como parte do curso Building and Sustaining a Successful Enterprise (BSSE), o professor Clayton Christensen nos apresentou a Jobs to be Done, uma ferramenta que nos permite entender exatamente por que estamos “contratando” produtos e serviços. Dos mais de 500 cases e ferramentas de gestão estudados em 2 anos de curso, a Jobs to be Done me marcou profundamente e vale uma revisita a este legado do incrível professor Christensen.

A teoria Jobs to be Done foi desenvolvida inicialmente pelo professor Clayton Christensen da Harvard Business School e seus colegas Scott Cook e Taddy Hall. Christensen é um renomado autor e palestrante na área de inovação e é conhecido por seu trabalho sobre a teoria da inovação disruptiva.

A ideia de Jobs to be Done surgiu quando Christensen e seus colegas estavam estudando por que algumas empresas bem-sucedidas, como a Kodak, fracassaram ao tentar se adaptar às mudanças no mercado e a outras tecnologias emergentes. Eles descobriram que muitas empresas se concentram demais em características e benefícios de produtos e serviços existentes, em vez de se concentrarem nas necessidades fundamentais dos clientes.

A partir dessa pesquisa, Christensen e seus colegas começaram a desenvolver a framework Jobs to be Done, que se concentra em entender os “trabalhos” que os clientes estão tentando realizar em suas vidas e como as empresas podem atender a essas necessidades de forma mais assertiva. A teoria rapidamente ganhou popularidade em muitos setores, incluindo tecnologia, onde é amplamente utilizada para orientar a inovação e o desenvolvimento de novos produtos e serviços.

Importante destacar os aspectos funcionais e emocionais da Jobs to be Done. A dimensão funcional se concentra nas necessidades práticas dos clientes, enquanto a dimensão emocional se concentra nas necessidades mais profundas e subjetivas dos clientes, como suas motivações, sentimentos e desejos.

A dimensão funcional da Jobs to be Done envolve identificar os trabalhos específicos que os clientes estão tentando realizar e os obstáculos que enfrentam ao tentar concluir esses trabalhos. Isso pode incluir coisas como encontrar uma solução para um problema específico, cumprir uma obrigação ou tarefa, ou alcançar um objetivo específico.

Por outro lado, a dimensão emocional da Jobs to be Done envolve compreender as motivações, sentimentos e desejos subjacentes dos clientes. Isso pode incluir coisas como o desejo de se sentir seguro, confortável ou conectado a outras pessoas. Ao entender essas necessidades emocionais, as empresas podem criar soluções que atendam às necessidades profundas e subjetivas dos clientes, criando uma conexão emocional com eles e portanto aumentando sua defensibilidade perante a concorrência.

Para aplicar a ferramenta Jobs to be Done, as empresas precisam entender quais são os trabalhos específicos que seus clientes estão tentando realizar e como seus produtos e serviços podem ajudá-los a realizar esses trabalhos de forma mais eficiente ou eficaz. Isso envolve conversar com os clientes, observá-los usando os produtos e serviços existentes, e analisar os dados para entender o comportamento do cliente.

Por exemplo, o Airbnb entendeu que muitas pessoas procuravam acomodações autênticas e únicas que lhes permitissem vivenciar a cultura local durante suas viagens. Eles projetaram uma plataforma que conecta os viajantes com anfitriões locais que oferecem acomodações únicas e personalizadas em todo o mundo, atendendo ao trabalho específico que seus clientes estavam tentando realizar. O funcional é encontrar um lugar para dormir enquanto estiver viajando, o emocional é viver experiências surpreendentes e criar memórias únicas, o que poucos hotéis conseguem entregar.

Outro exemplo é a Dropbox, que entendeu que muitas pessoas procuravam uma forma segura e conveniente de acessar e compartilhar arquivos de qualquer lugar e dispositivo. Eles projetaram uma plataforma de armazenamento em nuvem que permite aos usuários sincronizar arquivos em todos os seus dispositivos e compartilhar arquivos facilmente com outras pessoas, atendendo ao trabalho específico que seus clientes estavam tentando realizar. Neste caso, o aspecto funcional é muito mais relevante do que o emocional, no entanto oferecer uma experiência fácil, simples e esteticamente elegante contribui para encantar o usuário no aspecto emocional.

Aqui no Brasil, gosto sempre de lembrar do exemplo do iFood, onde trabalhei como estrategista. No aspecto funcional, o óbvio é que o iFood é contratado para saciar a fome. Porém, e mais importante, descobrimos que (emocionalmente) o iFood é contratado para realizar o trabalho de permitir mais tempo ao usuário, evitando que ele tenha que sair de casa ou preparar alimentos em sua cozinha, o que resulta em mais tempo de qualidade em relacionamentos afetivos. O funcional é tipicamente mais fácil de ser substituído (ex. um lanche improvisado, uma ida a padaria da esquina, comida congelada), porém o emocional costuma trazer vantagens mais duradouras, especialmente se combinado a uma ótima experiência do usuário. Como saciar a fome e precisar de mais tempo de qualidade com pessoas queridas são necessidades recorrentes, temos aqui um modelo de negócios maravilhoso.

Para os interessados, vale a leitura dos artigos e livros do professor Christensen, especialmente o artigo “Know your customer’s Jobs to be Done” e o livro “The Innovators Dilemma“. Mais importante do que isso, reflita profundamente sobre o que você e sua empresa estão fazendo e responda: para qual trabalho estão sendo contratados?

O tal do product-market fit

Para as startups que estão dando a largada (pre-Seed e Seed), há apenas uma coisa na qual os fundadores devem se concentrar obsessivamente: encontrar o o tal do product-market it (PMF). No comecinho, é muito melhor ter um pequeno grupo de clientes (idealmente adquiridos a baixo custo) altamente engajados com seu produto do que uma grande audiência que se envolve superficialmente. Eu me convenço que uma startup alcançou o PMF quando uma parte relevante de seus usuários demonstra amar o produto a ponto de pagar o preço correto, recomendá-lo a outros usuários e usá-lo novamente. Importante destacar o “pagar o preço correto”, porque oferecer um produto ou serviço de forma subsidiada constantemente leva a um resultado falso-positivo. É melhor não enganar a si mesmo e olhar os dados de forma fria e objetiva, praticando o preço correto (leia-se margem de contribuição saudável, idealmente acima de 50% para software).

Um exemplo claro é o iFood: em 2017, eu era o estrategista-chefe quando analisamos nossas cohorts de clientes e ficou evidente que, para cada 100 clientes que pediam comida pela primeira vez através da plataforma, 30 continuariam comprando pelo menos uma vez por mês pelos próximos 30 meses (naquela época esse era o limite para o life time value (LTV)). Isso, combinado com dados sobre os perfis de usuários e restaurantes na maioria das cidades brasileiras, tornou as decisões de investimento internas fáceis: sabíamos o LTV de cada cliente e estávamos dispostos a investir até 30% desse valor para adquirir novos usuários, entendendo que o mercado inexplorado era enorme. Naquela época, a maioria das pessoas ainda pediam comida pelo telefone. Os dados internos sobre o comportamento do cliente (retenção e taxa de recompra) comprovaram o PMF, o que, combinado com os dados externos sobre o tamanho da oportunidade, tornou óbvio para os acionistas que a empresa transformaria o dinheiro dos investidores em clientes valiosos que se fidelizavam por um longo tempo (usuário) e pagavam pelo seu serviço (usuário e restaurante). Uma empresa com PMF claro e um mercado endereçável grande e fragmentado é um ativo incrível para os investidores, pois pode alavancar capital para criar uma empresa dominante que está encaminhada para gerar fluxos de caixa atraentes. Claro, os mercados são inteligentes e com certeza haverá competição em indústrias que crescem rápido e com boas margens, portanto a inovação, o foco e a capacidade de execução são fundamentais para vencer. Aqui, conhecemos a história da intensa concorrência com UberEats e Rappi.

O objetivo de uma empresa pré-Série A é comprovar o PMF, então todos o foco da CEO e os recursos da empresa devem ser dedicados a isso. No início, a CEO deve fazer todas as vendas, o CTO deve falar com os clientes com frequência para entender os pontos de dor do usuário diretamente, o marketing deve ser hipersegmentado para entender as mensagens que ressoam melhor com diferentes públicos-alvo que podem se engajar mais profundamente com o produto. Levantar uma Série A sem PMF deve ser interpretado como um sinal de “o mercado está nos dando uma segunda chance de comprovar o PMF”, e não como se a empresa estivesse pronta para crescer fazendo mais do mesmo e houvesse apenas motivo para comemorar.

Abaixo está um exemplo fictício de uma linda análise de cohort que mostra a porcentagem de usuários que permanecem ativos desde a criação da conta, usando o produto com uma frequência mínima para serem definidos como “ativos” (que pode variar do uso diário ao mensal). Como seus cohorts se comparam?

Encontrar o PMF é difícil e apenas algumas empresas o alcançam com seu produto inicial. Após a captação de rodadas pre-Seed e Seed, eu já vi equipes pivotando e eventualmente encontrando algo que funciona, mas a realidade é: quanto mais conhecimento você tiver sobre o problema que deseja resolver, quem é o cliente e a solução que deseja oferecer, maiores serão as chances de acertar o alvo e iniciar sua empresa com o pé direito. É muito mais barato testar o real tamanho do problema, o usuário ideal e atratividade da sua solução antes de captar uma rodada de investimentos parruda.

Quer saber mais? Eu recomendo a leitura de 12 things about product-market fit, do Tren Griffin – no final do artigo ele cita várias referências para quem quiser se aprofundar mais.

Uma teoria sobre como viajar o torna um líder (e indivíduo) mais autêntico

Viajar pode proporcionar uma experiência marcante, construindo e transformando a sua história. Cada passo, cada indagação, cada surpresa é matéria-prima original e de qualidade para mais um capítulo da sua autobiografia. E aí, hora de virar a página e começar o próximo?

Santo Agostinho já dizia “a vida é um livro, e os que não viajam leem apenas uma página”. Nesse espírito, aqui escrevo para expor a hipótese de que, sim, liderança e criatividade podem ser desenvolvidas e cultivadas através da expansão e possível rompimento irreversível das nossas microbolhas.

Este raciocínio é baseado principalmente na minha experiência pessoal direta, mas certamente se fundamenta na literatura produzida por viajantes, poetas, filósofos e pensadores da área de liderança. Concordo que não é óbvia a associação entre viagem e liderança em livros ou artigos acadêmicos, mas veja bem, tudo o que precisamos fazer é juntar as evidências.

Para começar, é consenso entre os pensadores da área de liderança e grandes líderes que existe uma correlação direta entre liderança e características individuais como:

. inteligência

. flexibilidade e capacidade de se ajustar

. extroversão

. consciência

. abertura ao novo e à experiência

. autossuficiência

Sim, há os que tiveram a sorte de nascer com todos estes atributos, mas a ciência acredita que a maioria deles é desenvolvida durante a vida. Experiências que forcem a adaptação ao novo, a comunicação aberta com estranhos, o despertar de percepções a um mundo novo que se revela, e a sobrevivência ao caos aparente – mesmo que por pouco tempo –, trazem um aprendizado de liderança prático, visceral, e autêntico. Fora do feijão com arroz do dia-a-dia e “navegando” no desconhecido, desconfortavelmente somos pressionados a agir inteligente e eficientemente, de forma rápida e sensível à fonte desafiadora.

Você já sacou, não é? Ligando os pontos, é imperativo relacionar o desenvolvimento de todos, absolutamente todos estes atributos, com as experiências que podem ser adquiridas através de uma boa escapada independente. Geralmente, quanto mais longa e mais distante do que lhe é comum, maior o choque e melhor o resultado.

Viajar nos afasta da maneira tradicional de pensar sobre a nossa microbolha – trabalho, amigos, família, sociedade, dores e amores. Encarar o mundo – a grande bolha – através de uma outra ótica resulta no rompimento daquela microbolha, atingindo, possivelmente, esferas muito diferentes. O diferente pode ser maior, menor, pior, melhor… enfim, o foco está em experienciar o que antes era desconhecido.

Quando tropeçamos e a vida nos dá um susto, enxergar através de uma perspectiva diferente leva a um entendimento além de sua condição atual. O resultado? Você se torna mais autoconfiante ao perceber que a situação é muito menos complexa do que parece. Viajar também força você a se reconectar consigo próprio, renovando sua espiritualidade e expandindo a autoestima. Uma dose extra de autoconfiança sempre é bem-vinda para liderar mudanças indispensáveis, a nível pessoal e profissional, num mundo em constante transformação.

Convenceu-se? Longe de mim enchê-lo de teoria, então sugiro que você mesmo valide (ou reconfirme) essa hipótese. Coloque-a em prática! Afaste-se de sua zona de conforto por algumas horas, dias ou semanas, embarcando numa experiência nova onde o mais diferente é o mais atraente. Para quem de fato arrumar as trouxas e decidir partir, ir sozinho potencialmente enriquece a experiência, já que você provavelmente enfrentará surpresas incomuns a viajantes em grupo. Reserve suas passagens e as duas primeiras noites de acomodação; para todo o resto, adapte-se de acordo com a demanda. Idealmente, o choque deve ser completo: inversão de fuso-horário, língua, cultura e estação do ano. Sua grana também deverá ser limitada, forçando uma comunicação aberta com viajantes na mesma situação: qual o restaurante que oferece a melhor barbada? A melhor maneira de se mover de A a B? Tudo também lhe parece errado nesse lado do mundo?

O destino? A expansão da sua microbolha, agora talvez já uma minibolha esticada através de uma malhação intensa centrada em flexibilidade e adaptabilidade, exercícios que você fez sem nem mesmo perceber. Opa, tem mais por aí: ser o autor da sua própria história, trazendo na bagagem uma dose de coragem vitalícia para experimentar possibilidades criativas na vida que deixarão a sua autobiografia cada vez mais rica e autêntica.

Claro que viajar o tempo inteiro é irrealista, mas experiências como estas podem ser praticadas facilmente em praticamente qualquer contexto. Explorar um bairro novo, aprender a tocar violão, interessar-se pelos mistérios do fundo do mar, provar uma cozinha diferente, fazer uma aula de circo, estudar macroeconomia, sentir os prazeres e (potenciais) frustrações do vegetarianismo por uma semana: o que importa é deixar sua zona de conforto e explorar, mergulhando num mundo novo. O que acontece depois resume-se em renovação: reconexão com os seus próprios valores, objetivos, sonhos, medos, e tudo o que se relaciona a ser humano e estar vivo.

Comece pequeno: experimente aos poucos, e construa uma plataforma para objetivos maiores e mais ambiciosos. Grandes mudanças são baseadas em pequenos passos rumo a uma grandiosa ideia. Esteja preparado para se adaptar ao imprevisível e enxergar harmonia no caos.

O resumo: romper a sua microbolha, por mais assustador que pareça em princípio, pode se tornar uma ferramenta capaz de impactar positivamente todas as facetas da sua vida: trabalho, casa, comunidade e indivíduo, incluindo mente, corpo e espírito. Na sequência, proporcionalmente à dimensão da expansão da sua microbolha, inflam-se a autoconfiança e a autoestima. Para liderar – seja sua vida, um negócio, um time, ou um projeto – estes elementos são absolutamente essenciais.

Finalmente, lembre-se de que somos hoje o reflexo do ontem. O que vimos, sentimos, provamos, ouvimos, aprendemos e experienciamos no passado molda nosso comportamento e atitudes hoje. Então, está na hora de virar a página e começar a escrever o próximo capítulo?

Resiliência: o quê, por que e como

“Mais do que educação, mais do que experiência, mais do que treinamentos, o nível de resiliência de um indivíduo determinará quem terá sucesso e quem se perderá pelo caminho. Isso é verdade para pacientes com câncer, é verdade para atletas olímpicos, e é verdade para executivos e empreendedores na sala de reunião”, afirma Dean Becker num artigo de 2002 da Harvard Business Review. Resiliência, portanto, é a habilidade de controlar sua resposta a situações física ou mentalmente estressantes. A ciência mostra que quanto mais resiliente o indivíduo é mais longe ele irá na sua vida pessoal e profissional. Faz sentido. Sucesso é a o reflexo de inúmeras quedas e derrotas que foram encaradas como oportunidades de aprendizado e crescimento.

Na minha experiência convivendo e trabalhando com indivíduos extremamente talentosos – em Harvard, na Nestlé, na McKinsey, na Fullbridge e pelo mundo – fica claro que os mais interessantes são aqueles que passaram por adversidades as vezes pesadas e tiveram força para se reerguer ainda maiores. Eles tem uma energia interna contagiante, empatia e humanidade ao mesmo tempo que demonstram força e determinação certeira. Exemplo? Liz Kwo, minha colega e co-coach no programa que recentemente concluímos em Shanghai pela Fullbridge: nascida em Taipei de mãe solteira, pobre, imigrou ilegalmente aos Estados Unidos com a mãe e a irmã quando ainda bebê. Em San Francisco, onde chegaram de navio, moravam numa garagem enquanto a mãe suava em empregos simples para trazer comida pra “casa”. Ela tinha tudo pra dar errado na vida, mas hoje suas paredes ilustram diplomas da Stanford, Harvard Medical School e Harvard Business School, simplesmente as melhores instituições de educação do mundo. Como? Porque ela sabia que sua única chance seria através da educação e mérito, o qual ela demonstrou sempre sendo a aluna mais engajada, curiosa e determinada. Escutando ela falar fica claro que sua jornada não foi fácil ou romântica, mas ela diz “toda vez que eu me sentia como uma perdedora, alguém marcado para falir, viver na pobreza e ser uma vítima de um mundo injusto e cruel eu fechava os olhos e lembrava que o esforço da minha mãe tinha que valer a pena, e aí eu liberava a fera dentro de mim”. É inspirador escutar isso dela, ainda mais porque suas palavras saem sem dor ou rancor; ela conta sua história com orgulho, suavidade, humanidade ilustrada com vulnerabilidade e determinação para continuar em frente.       

 Claramente, o indivíduo resiliente não é aquele que evita stress de toda e qualquer forma, mas sim aquele que aprende como controlá-lo e transformá-lo em energia produtiva. A pessoa resiliente provavelmente entortará, mas não quebrará, quando confrontada com adversidade, traumas, tragédias e ameaças. Ela é, na maior parte do tempo, ativa e não passiva em relação ao o que acontece a seu redor e em sua vida, sempre acreditando ser autora do seu presente e futuro, e não uma vítima do seu passado.

Bom, mas felizmente muitos de nós não passaram por situações dramaticamente impactantes que balancem nossos valores e nos façam questionar nossa missão no mundo, o que frequentemente se ouve de gente extremamente resiliente (já ouviu a história de alguém que sobreviveu um grave acidente ou doença?). Então, o que fazer se sua vida é confortável e relativamente linear? Os cientistas Steven Southwick e Dennis Charney, da Yale University School of Medicine, recomendam 4 estratégias comprovadas cientificamente para dar um boost em sua resiliência:

Trabalhe com seu físico: fisiologicamente, atividade física moderada promove a liberação de endorfina e dos neurotransmissores dopamina e serotonina, os quais reduzem sintomas de depressão e melhoram o humor. Um experimento com animais mostrou que correr frequentemente diminui fobias diversas e aumenta a coragem para exploração de novos ambientes. O recomendado é uma hora e 15 minutos por semana de atividade aeróbica intensa como corrida e natação, ou duas horas e 30 minutos de atividades moderadas como caminhada, por exemplo.

Aceite desafios e saia da zona de conforto: dar uma passo além do que você normalmente faria, seja nas férias, no final de semana, ou no trabalho, estica sua zona de conforto e potencialmente aumenta sua segurança. Não há limites e cada um sabe o que isso significa para si, mas pode ser vencer um medo, fazer uma apresentação num idioma novo, explorar um outro país com poucos recursos e infraestrutura, ou começar a dizer não ao invés de sempre se moldar para agradar os outros.

Medite, e desenvolva uma visão positiva do mundo: meditar frequentemente pode lhe trazer clareza, foco e facilitar a priorização de onde investir sua energia. Meditar lhe conecta com o presente, evitando lamentações sobre o passado e preocupações excessivas com o futuro. Isso comprovadamente reduz o stress e lhe permite maior controle sobre sua vida e decisões, lhe tornando uma pessoa mais segura e determinada.

Amigos & relações humanas: finalmente, a última tática para aumentar resiliência o estimula a passar mais tempo com pessoas com as quais você demonstra aceitação, respeito e admiração mútua. Só funciona, no entanto, se você estiver realmente conectado aquela pessoa e poder contar com ela para conselhos, dicas ou apenas um ombro amigo. Ajuda se sua network for recheada de indivíduos que são exemplos de resiliência em pessoa, pois você terá role models a observar e seguir. Imitar comportamentos e práticas que deixam os outros mais fortes também pode ser de alto valor. Por exemplo, quando estiver desanimado e pronto pra desistir vale lembrar que existe uma “fera” dentro de cada um de nós, como diria minha colega Liz.

Finalmente, escrever sua história ciente de que você é autor e protagonista, de que você decide gastar mais tempo comemorando pequenas vitórias do que lamentando sobre como o mundo é injusto com você, aumenta sua motivação, determinação, produtividade e, ultimamente, felicidade. É por isso que as universidades e empresas mais concorridas do mundo esperam escutar histórias de superação e resiliência em seus processos seletivos. Dado tudo isso, eu pergunto a você, leitor, e também a mim mesmo: qual o próximo capítulo?

Não sabe contar sua história? Então você não tem uma estratégia

A arte de articular seu passado, presente e futuro de forma coerente, ambiciosa e inspiradora é crítica para orientar o foco e energia no que, de fato, fará esta história se realizar. Desde sempre a raça humana conta histórias para dar sentido a sua existência, para explicar o inexplicável e organizar a complexidade do mundo e da vida de forma clara, interessante e, quase sempre, carregada de emoção. Como então usar o storytelling para amarrar a sua própria narrativa com autenticidade e desenhar uma estratégia pessoal projetando o melhor que você pode ser?

Como não lembrar das fábulas contadas quando criança, dos filmes que marcaram época, de novelas de sucesso ou de propagandas emocionantes? A dinâmica narrativa está no DNA da comunicação humana e, desde as primeiras pinturas rupestres, contar histórias tem sido um dos nossos métodos de comunicação mais importantes. Todos nos lembramos e gostamos de uma boa história, seja um romance, um livro ou simplesmente uma novidade que um amigo está nos contando. Pensamos em narrativas durante todo o dia e consciente ou inconscientemente formamos histórias para cada ação e conversa, sendo que 65% de nossas conversas são formadas por histórias.

Jonathan Gottschall, em seu livro The storytelling animal — how stories make us human, reforça a ideia da universalidade da presença das histórias na espécie humana. Segundo o autor, somos uma espécie completamente atrelada a um mundo cheio de contos, e não só durante a infância. E por que histórias são um objeto tão fascinante para a imaginação humana? Por que o formato de uma história, onde se desenrolam os acontecimentos, um após o outro têm um impacto tão profundo em nossa aprendizagem?

A resposta basicamente está no fato de estarmos ligados através das histórias. Histórias naturalmente educam, alertam e influenciam quem as ouve. Aquilo que nos é contado desde a infância torna-se parte do que somos como pessoas. Histórias engajam e geram emoções e conexões em níveis intangíveis que nem sempre conscientemente compreendemos. Histórias são capazes de gerar empatia. Cientificamente, não são apenas as partes de processamento de linguagem em nosso cérebro que são ativadas, mas toda a área de nosso cérebro, fazendo com que entremos em modo de atenção plena.

E é com este poder de alcance e influência, que o storytelling passa a ser uma ferramenta importante não só para negócios, mas para a definição de sua identidade pessoal e profissional. Por definição, storytelling é a arte de contar histórias e consiste em uma maneira de utilizar narrativas para compartilhar informações, conhecimentos e experiências. Empresas vêm utilizando esta ferramenta para vender serviços e produtos. Elas exploram emoções universais como o casamento ou nascimento de um filho e, ao contar histórias tão pessoais, íntimas e únicas (e igualmente tão comuns ao público), um diálogo singular é formado entre os produtos e serviços da marca e seus potenciais consumidores. No ambiente corporativo, o storytelling ajuda a conectar pessoas, alimentar a criatividade, inspirar, engajar e mobilizar equipes, aumentando a capacidade de um time de se apropriar dos objetivos estratégicos da empresa. A própria definição e comunicação destes objetivos estratégicos deve fazer parte de uma boa história: começamos com A, desenvolvemos B, aprendemos C e por isso nossa estratégia é crescer com D.

Da mesma forma, o uso da narrativa auxilia pessoas a ilustrarem sua trajetória e a construírem sua estratégia pessoal. Quem é você? O que você fez, faz e quer fazer? Quais os momentos mais definidores da sua história, aqueles que moldaram sua forma de entender o mundo e o seu papel nele? Levando em consideração toda a sua vivência pessoal e profissional, pontos fortes e fracos e aspirações, qual sua estratégia de carreira e de vida? Qual sua missão, onde você quer estar em cinco e dez anos e quais decisões e investimentos deve fazer agora para que isso aconteça? Ao descobrir e estruturar sua própria história, você passa a alcançar e se conectar a audiência de forma mais significativa e profunda. Uma boa história capta a atenção, relaciona eventos formando uma ideia completa e deixando uma impressão duradoura ao fim. Para tanto, o processo de estruturação de sua história deve iniciar com uma autorreflexão. É imprescindível que você tenha este momento de introspecção e percorra o seu passado, identificando seus pontos fortes e fracos e os momentos da sua vida que influenciaram o que você é hoje. O que te inspirou a buscar por esta carreira? Que evento determinou uma mudança de planos? Quais valores e princípios norteiam suas decisões?

Como ouvintes, gostamos de entender o porquê de alguém estar fazendo algo. Com uma história bem articulada, você supre a necessidade do elemento humano nas relações interpessoais de entender de onde você vem, o que determinou o que você é hoje, no que você acredita e no que você luta contra. Toda história deve ter um início que desperte o interesse, uma continuação que segure a atenção com elementos de suspense e questionamento e um fim que deixe uma percepção positiva. Sua história deve ser marcada por um desafio e uma escolha a ser feita, por suas ações e no que tudo isto resultou. Ao transmitir estes elementos e comunicar sua trajetória de uma maneira autêntica, você estabelece uma conexão emocional e ganha a confiança do seu público, facilitando o trabalho de persuasão e garantindo que sua identidade seja percebida de forma autêntica e marcante.

O storytelling é sobre encontrar formas de integrar história, valores e público em uma narrativa convincente e apaixonante. Você é o personagem da sua história e é hora de desenvolvê-la e comunicá-la de forma impactante e autêntica. Afinal, nós somos as histórias que contamos. E entãoqual história você contará aos seus netos?

Artigo originalmente escrito por Alex Anton e Francine Zucco e publicado na Harvard Business Review Brasil em 2016.

Zona de descomforto: sobre viver no exterior, e as 10 lições mais importantes que o estrangeirismo me ensinou

Foram 73.680 horas, 3.070 dias, ou 8 anos e 5 meses. Foram não, ainda são, porque todavia não tenho endereço fixo no Brasil e continuo na estrada. Bem, mas serão, porque a passagem de volta já está marcada e contratos de trabalho já foram assinados em território tupiniquim. Enfim, quase 9 anos de estrangeirismo estão chegando ao fim, e como o fim de qualquer ciclo vale parar, refletir e reconhecer o que aprendi de mais importante nesse período tão especial e transformador da minha vida. Cabe também se (re-)emocionar — rir e, por que não, chorar — com as passagens mais marcantes dessa viagem longa, linda, saborosa, mas também por vezes fria, solitária e confusa, que hoje define quem sou eu.

Saí do Brasil pela primeira vez em 2003. O destino era Potsdam, na Alemanha, e a justificativa, um estágio acadêmico num instituto de pesquisa de ponta. Foi a recompensa pelo intercâmbio de high school, aqueles que a gurizada faz durante o segundo grau, que tanto queria realizar cinco anos antes mas que não teve a aprovação dos meus pais. A explicação racional era uma experiência profissional que pudesse enriquecer meu currículo, a emocional, e mais autêntica, era a realização de um sonho de viver e viajar pelo mundo, mesmo que fosse por apenas 3 meses. Foi o primeiro grande passo nessa jornada que culminou com dois anos de estudos, e muito aprendizado, num outro lugar grande demais pra caber nos sonhos do moleque de 20 anos que embarcou medroso e com lágrimas nos olhos naquele vôo para a Alemanha: o mestrado em business na Harvard Business School.

Entre chegar em Potsdam em 2003 e receber o canudo de Harvard em 2013 passaram-se uma série de eventos e experiências que me fazem sentir tanto orgulhoso quanto sortudo. Orgulhoso por reconhecer que foi fruto de suor — físico e mental — e muito otimismo; sortudo por também reconhecer que muito do que me aconteceu não estava no meu controle, e que sem o apoio de pessoas e instituições que guardo na memória e no coração, não teria acontecido. Bom, corro o risco de transformar este texto numa autobiografia narcisista e detalhada, então peraí, a ideia aqui é compartilhar o que experienciei e as lições ali aprendidas, imaginando que esse aprendizado possa ser traduzido em ideias de aplicação quase universal. Ideias que podem lembrar você, leitor, e eu mesmo, das riquezas, belezas e potencial que libertamos quando gastamos energia, tomamos coragem, respiramos fundo e saímos da nossa zona de conforto. Ideias que também me lembram o quão acessível, inspirador e infinitamente criativo é o mundo. E a vida.

Crianças indonesianas brincando em Lombok

1. Pare de se enrolar e vá logo! O universo e, principalmente, você, farão que tudo dê certo uma vez que a decisão de partir tenha sido tomada e você se veja independente e sem amarras para fazer acontecer. Parafraseando o navegador brasileiro Amyr Klink, “pior que não terminar uma viagem é nunca partir”. Faz sentido, mas como é difícil dar o primeiro passo. Pessoalmente, o momento mais difícil, aquele que me faz tremer nas bases e repensar o porquê de tudo isso é sempre no check-in e despedida da família no aeroporto. Ah, como dói! E com isso, infelizmente, a gente não se acostuma. Todas as vezes o mesmo aperto no peito, a mesma energia magnética me prendendo a minha terra e aos meus. Mas uma vez que o avião decola, livre e independente eu vou. Os medos e ansiedades que ora me assombravam se transformam em oportunidades únicas de descobrimento. Tudo parece fluir, me sinto presente, forte e capaz de encarar qualquer desafio, e mesmo o que dá errado se transforma numa boa história para contar.

2. Eu v3.0. Longe da zona de conforto voltamos aos valores mais básicos, e nos reinventamos muito mais facilmente. Essa mesma energia magnética que me prende ao único lugar que realmente posso chamar de casa, ou também de zona de conforto, é também aquela que me prende a rótulos, limitações e paradigmas impostos por mim e pela sociedade ao meu redor. Longe do meu contexto é muito mais fácil experimentar estilos de vida, pessoas e opções profissionais que de outra forma não fariam parte do que nos é “possível”. Por exemplo, quando embarquei para Londres em 2004 tinha uma vida relativamente fácil e confortável em Florianópolis, típica de um jovem de classe média. Estava longe da minha independência financeira e trabalhar duro significava estudar e dar conta do estágio em iniciação científica. Em Londres, no entanto, rapidamente entrei em outra frequência: trabalhava de garçom, barman, lavador de pratos e ainda entregador de cartas em até 3 lugares diferentes no mesmo dia. Pagava minhas contas e comprava minha comida, voltando a um estilo de vida tão básico que questionei se realmente precisava comer carne, cujo custo era altíssimo em relação a uma dieta vegetariana. Desde então me tornei vegetariano, e carrego na bagagem essa forma de enxergar o mundo: examinando o que realmente preciso e o que naturalmente assumo como “normal” dados os valores e normas da sociedade.

3. O mundo está de portas abertas! Existem inúmeras possibilidades de estudar e viajar no exterior de forma barata. No geral, qualquer trabalhador da classe média pode, com esforço e planejamento, estudar, trabalhar ou viajar em praticamente qualquer país do mundo. Também achava que viajar era um privilégio dos endinheirados, ou de gente que rala muito e após 10 anos de suor consegue passar uma semana em Nova Iorque. Não é. Com curiosidade e determinação é possível ir muito longe, e gastando pouco. EUA e Europa são lugares caros para se viajar. Mesmo assim é possível dormir em albergues com quartos coletivos a $20–35/noite; viajar de trem ou ainda mais barato, de ônibus; e comer a comida local comprada em mercados e servida em parques, praças, museus ou no próprio albergue. Em lugares mais distantes e por isso mais caros de chegar, como a Ásia, um viajante econômico consegue sobreviver com $10 dólares por dia, incluindo cama e comida. Uma vez na estrada, oportunidades para economizar ou fazer uns trocados podem aparecer: trabalhar no albergue em troca de cama e café da manhã, dar aulas de inglês ou português, trabalhar a distância como freelancer (principalmente se você manda bem em TI), e por aí vai.

Já estudar fora exige mais pesquisa e planejamento, mas a experiência será mais duradoura e impactante. São inúmeras as possibilidades de bolsas de estudo, principalmente para mestrado e doutorado, para brasucas no exterior. Histórico escolar forte e atividades extracurriculares que enriqueçam o c.v. são muito importantes para se conquistar uma vaga em universidades de primeira linha, mas com esforço e visão qualquer um pode chegar lá. Eu não sabia disso, e aprendi através da tentativa e erro. Fui felizardo por ter sido aceito para meu mestrado no Canadá, em 2006, com uma bolsa que cobria os custos da universidade e meus gastos com manutenção básica: tinha uma cama confortável e me alimentava sempre em casa ou carregava marmitas (sempre sem carne ;-)), mas não sobrava muito. Com o tempo descobri várias outras oportunidades de aumentar a receita: concorri a prêmios e bolsas de caráter meritocrático e dobrei meu salário! Dicas de como encontrar essas oportunidades dariam um livro, mas se tivesse que compartilhar apenas uma, seria: pesquise as universidades que sejam fortes na sua área de experiência ou interesse, listando 10 escolas em ordem de prioridade; vasculhe o site de cada universidade em busca de scholarships para international students, e entre em contato com o admissions office, eles poderão esclarecer pontos que em princípio parecerão ultra-confusos. Uma vez que esse mapa inicial esteja pronto, procure professores, amigos ou conhecidos que tenham estudado fora, apresente seu plano, e peça feedbacks. A partir daí, com um pouco de suor e paciência, acredite, tudo dará certo!

4. O passaporte tupiniquim. Brasileiros são recebidos com muita alegria em todo o mundo. Talvez nossos hermanos argentinos torçam um pouco o nariz, mas mesmo assim o farão com um sorriso no rosto; o resto do mundo, porém, abrirá um sorriso caloroso ao ouvir a palavra Brasil. Interessantemente, quanto mais longe do país, maiores esses sorrisos. Há pouco o passaporte brasileiro me descolou dois mergulhos gratuitos na Tailândia e uma refeição autêntica e calorosa com uma família no Mianmar. Também somos sortudos por precisarmos de visto para poucos países: indianos e chineses, por exemplo, não entram na Europa continental ou Reino Unido sem visto de turista. Ouvi de uma indiana que quando ela escutou a palavra Brasil sair da minha boca imaginou cores, sorrisos, música e muita alegria. Que assim seja!

5. Viajar e morar no exterior nos torna mais criativos!

A exposição a formas diferentes de interagir e interpretar a vida e o mundo nos livra de preconceitos e nos torna mais abertos a aceitar o novo ou o diferente. Essa exposição também mexe com a imaginação, produzindo ideias e possibilidades antes limitadas por preconceito ou medo de errar. A interação com outros povos e culturas nos torna mais criativos, e a ciência, felizmente, valida esse ponto. O professor William Maddux, da escola de negócios europeia INSEAD, estudou a influência de experiências internacionais no perfil de altos executivos, e suas conclusões são extremamente encorajadoras para aqueles com sede de mundo. Ele afirma “seu nível de criatividade aumenta significativamente se você estiver imerso em experiências locais e, particularmente, idiomas. Existe uma associação muito forte entre a habilidade de falar idiomas diversos e criatividade. Portanto, indivíduos que falam dois ou três idiomas são, em geral, mais criativos.” O mesmo estudo relaciona criatividade a empreendedorismo, o que torna o pacote ainda mais atraente!

6. & flexíveis, e empáticos, e resilientes

Além de criatividade, outros aspectos universais de cidadania e liderança são flexibilidade, empatia e resiliência. No estrangeiro nunca pude me dar ao luxo de exigir que as coisas funcionassem, ou as pessoas pensassem e agissem da maneira que eu gostaria ou achava certo. Eu era o diferente, e assim sempre fui forçado a questionar se o que eu em princípio achava estranho era universalmente errado ou apenas diferente. Por exemplo, na Suíça tive que me adaptar a confirmar a presença em churrascos e jantares de amigos com 4 semanas de antecedência, e aprender que não aparecer num desses eventos confirmados é ofensa grave. Na Indonésia, tive que aceitar que reuniões marcadas e confirmadas para o horário X horas não começam antes de X + 30 minutos. Fora da zona de conforto seguimos a teoria Darwiniana de “adaptar-se ou morrer”. Como consequência, naturalmente nos tornarmos mais empáticos com o outro, desenvolvendo a capacidade de se sentir no papel de outra pessoa, e assim entendê-la e respeitá-la mais facilmente. E finalmente, resiliência, a capacidade de persistir e superar desafios. Independentes e longe daqueles que normalmente nos ajudariam, ou daqueles que diriam que não adianta nem tentar porque é difícil demais, ou ainda das nossas próprias desculpas e máscaras, reconhecemos rapidamente que cabe a nós mesmos persistir e, por que não, aspirar cada vez mais longe. Quando terminei o mestrado em Winnipeg, no Canadá, me mudei para Toronto e “testei” como seria fazer o doutorado na University of Toronto, a melhor do Canadá e entre as 20 melhores do mundo. Tinha sido aceito e premiado com uma bolsa de estudos competitiva, e isso era motivo de orgulho para mim e minha família. O problema é que esse “teste” deu negativo; eu não gostei da rotina do laboratório e não me imaginei feliz pelos próximos 4 anos. Decidi encarar o mercado de trabalho e buscar oportunidades na indústria de alimentos no Canadá. Apliquei para mais de 100 empregos, fiz 4 entrevistas, e nada. Nenhuma das vagas era o emprego dos sonhos, mas seriam boas o suficiente. Após um final de semana com amigos em Montreal me bateu a luz: por que eu estou buscando oportunidades apenas aqui se existe o mundo inteiro? E na mesma noite de domingo vasculhei a Internet e me candidatei à vaga de trainee na empresa de alimentos mais respeitada do mundo, no seu país de origem: Nestlé, na Suíça. Já que as opções mais fáceis e acessíveis, e também mais medíocres não estavam dando certo, por que não tentar o que existe de melhor? Na segunda-feira de manhã recebi uma ligação da recrutadora marcando uma entrevista por telefone. Passei pela segunda peneira, e em seguida veio o convite para participar do processo seletivo completo em Vevey, na Suíça. Só a perspectiva de uma semana gratuita na Europa já fez com que tudo valesse a pena, mas o melhor ainda estava por vir. Deu certo, e a consequência foram quase 3 anos de aprendizado no coração da Europa!

7. Aspirações comuns. No nível mais primitivo, todos dividimos os mesmos sonhos, medos, preconceitos e aspirações. Dos meus colegas de apartamento em Londres — imigrantes ilegais suando para mandar uns trocados a suas famílias no Brasil ou na África — a meus colegas mais abastados de Harvard, cujas famílias exibem patrimônio pra lá dos 12 dígitos, concordo com o psicólogo Abraham Maslow que todos buscamos segurança, aceitação social, respeito num nível mais avançado, impacto e sensação de contribuição a algo maior. Claro, esses elementos se manifestam de forma diferente em pessoas distintas, mas a mensagem é que todos estamos aqui atrás da mesma felicidade que vai além do que é tangível e material. Quanto mais conhecemos povos diferentes, mais nos sentimos parte de um mesmo universo, e problemas que antes pareciam distantes das nossas vidas, como a poluição dos rios na China, por exemplo, passam a fazer parte da nossa agenda. Afinal, reconhecemos que tudo é interdependente, e o que afeta uma parte do planeta gera consequências para todo o demais.

8. Questionar & aprender: autoconhecimento. Não há opção: lá fora questionamos o tempo inteiro, e isso reflete em autoconhecimento aumentado. Tudo é diferente e por sermos forçados a nos adaptar, passamos a não julgar o diferente como simplesmente “errado”, e sim a questionar o porquê dessa diferença. Além de flexibilidade, como mencionado acima, esse questionamento frequente o leva a também interrogar o que lhe deixa mais feliz, quais são seus pontos fortes (e fracos), e o que gostaria de mudar no mundo. Essa busca não é fácil ou romântica, e o resultado de ter seu autoconhecimento alavancado pode ser uma mudança radical de vida ou carreira. Foi assim que a minha transformação aconteceu: de cientista a gerente de projetos, coach, e a um profissional com interesses diversos que se nega a ser rotulado com apenas um título. A busca é contínua, e o processo sempre é mais interessante do que o resultado final.

9. Todos os sentidos acordados. O escritor inglês Edwin Abbott Abbott escreveu em seu brilhante livro de 1884 Flatland: A Romance of Many Dimensions uma analogia que acredito refletir bem o que é viver no exterior:

A esfera resolve viajar e conhecer um lugar chamado Flatland, ou Terra Plana. Lá tudo existe em apenas duas dimensões, e a esfera assusta-se ao perceber que todos a percebem como apenas um círculo, e não uma esfera com 3 dimensões: altura, largura e profundidade. Frustrada, ela tenta explicar para o quadrado o que é o mundo em 3 dimensões, mas ele não entende. Já impaciente, a esfera finalmente resolve trazer o quadrado consigo na sua viagem de volta ao mundo 3-D, para que enfim ele possa ver e sentir o que ela insiste em explicar. O quadrado, ao chegar no mundo 3-D, fica perplexo: “um pavor indescritível tomou conta de mim. Em princípio foi a escuridão; depois uma sensação de estar enxergando sem realmente ver; eu vi espaço que não era espaço; eu reconheci a mim mesmo, e não me reconheci. Quando achei minha própria voz, gritei alto “isso é loucura total ou o Inferno!”. “Não é nenhum dos dois”, calmamente respondeu a esfera, “isso é conhecimento, é o mundo em 3 dimensões: abra seus olhos novamente e tente olhar com calma.” “Eu olhei e, magicamente, um novo mundo se descortinou.”

Viver no exterior é sim cansativo, mas é viver em 3 dimensões frequentemente. Quase não existe rotina já que o potencial de descoberta e aprendizado é próximo ao infinito. Viver em 3-D é estar presente, sentindo o cheiro do ar, o sabor dos alimentos, e o prazer da descoberta e do aprendizado. Por outro lado, na zona de conforto é muito fácil deixarmos a rotina, os compromissos, ou até mesmo o tédio tomar conta do nosso universo e reduzi-lo àquele encontrado em Flatland.

10. Você, autor. Viver no exterior é sentir, todos os dias, que estamos escrevendo nossa própria história. É tomar decisões que são mais guiadas pelo coração e pela razão do que pela opinião dos outros. É acumular riqueza intangível porque amontoar bens materiais desnecessários pode lhe dar dor de cabeça na próxima mudança de cidade ou país. É escrever e reescrever sua história, ciente de que você é autor dela, e não apenas um produto do seu passado.

Ufa, a lista foi longa! Ainda, essas lições se conversam entre si uma vez que na vida tudo acontece de forma integrada. Antes de fechar o texto, no entanto, vale mencionar os motivos que justificam minha volta, já que defendo fortemente as benesses de morar no estrangeiro. Volto porque acredito que no Brasil poderei ter mais impacto, ver mais valor no meu trabalho, e manter e estabelecer relações humanas que também definem quem eu sou. Sinto-me privilegiado por encontrar um país que busca e valoriza profissionais com experiências similares às que passei, e honestamente, também sinto a obrigação de compartilhar essas experiências, e continuar aprendendo, com os meus. Os planos de curto prazo estão bem definidos, mas o que virá depois ainda está a ser escrito. Em português.

Artigo originalmente escrito por Alex Anton e publicado em 2013 na Harvard Business Review Brasil.

Mais uma vez: Propósito, o “como” e “por que” que impactam sua empresa, carreira e vida

Falta de tempo, rotina, instabilidade financeira, pressão no trabalho. Ter uma carreira ascendente e gratificante, presença com qualidade na vida familiar, envolvimento comunitário significativo e satisfação pessoal parece cada vez mais inatingível. Mas o que norteia todas estas variáveis? O que de fato buscamos? Como ter energia para tudo isso, que acontece ao mesmo tempo para a mesma pessoa?

A resposta: propósito. No dicionário, propósito aparece como tomada de decisão, aquilo que se pretende alcançar ou realizar. De acordo com Peter Senge, autor do livro “A Quinta Disciplina”, enquanto visão é um destino específico, propósito é similar à direção que tomamos. A noção de propósito captura a intenção e o esforço que indivíduos fazem para alcançar seus objetivos. Propósito é a sua marca pessoal, aquilo que faz brilhar os olhos. Não é o que você faz, mas sim como e por que.

A palavra é atualmente um hot topic, como aponta o Google trends. Nos últimos 19 anos, o interesse pela palavra cresceu aproximadamente 4X.

Interesse pela palavra “purpose”, em todo o mundo, de acordo com o Google Trends

Já um estudo conduzido pela Ernst & Young e Universidade de Oxford aponta que o debate público acerca de propósito cresceu cinco vezes entre 1995 e 2014. De acordo com Neal Chalofsky and Liz Cavallaro em seu artigo “A Good Living Versus A Good Life: Meaning, Purpose, and HRD” (2013), este maior interesse vem dos questionamentos de baby boomers quanto às longas jornadas de trabalho e hoje consolidado pela procura da Geração Y por maior equilíbrio na vida pessoal e impacto profissional. Nossas percepções e motivações estão mudando e os autores acreditam em uma nova forma de ver qualidade de vida e satisfação. Não é mais apenas como administramos o trabalho versus o resto de nossas vidas. É um quebra-cabeça com vários aspectos relevantes e que mudam ao longo da vida — família, amigos, vida pessoal, comunidade, trabalho, lazer e espiritualidade.

Além disso, enxergo claramente o crescimento do vazio existencial coletivo com a decadência das comunidades e práticas religiosas no mundo ocidental e a ascensão das redes sociais, que nos provocam múltiplas vezes ao dia com comparações rasas e irreais. As religiões sempre seguiram de compasso para as pessoas, e para minha avó materna, que era extremamente católica, seu propósito era seguir os mandamentos da igreja, cultivando fé e espiritualidade (que vêm de dentro para fora) e acreditando que assim terminaria bem no paraíso. A geração da minha mãe e a minha, no entanto, já não tem a mesma fé, e o buraco da religião foi tapado com a busca pelo material e extrínsico (ex. reconhecimento profissional e dopamina constante).

Para a empresa: Investimento que vale a pena

A maioria das empresas apresenta missão e visão bem estabelecidas e divulgadas, mas poucas tem ou propriamente comunicam seu propósito ou razão de existir. No entanto, consumidores, mais empoderados e informados no processo decisório por uma marca, buscam organizações com valores alinhados. Isto desafia as empresas a repensarem sua identidade e modus operandi para se manterem competitivas no mercado e atraentes para seus funcionários. E operar baseado em valores e propósito autênticos e compartilhados claramente reflete no desempenho da empresa. Por exemplo, empresas com um senso de propósito bem definido, mensurado em termos de impacto social e não só em lucro, performaram 14 vezes melhor no índice S&P 500 — índice de ações comercializadas na NASDAQ ou NYSE — entre 1998 e 2013. Ainda, organizações com propósito claro apresentam maior retenção, tanto de consumidores (75%), quanto de funcionários (quatro vezes mais).

Propósito é simplesmente a razão pela qual uma organização faz o que faz. Ele deve nortear os processos decisórios, desde contratações, ações de responsabilidade social, até decisões de investimento. Seja desenvolver uma comunidade local, revolucionar o modo com que consumidores compram produtos ou adquirem serviços, propósito é, ou deveria ser, o que move as grandes empresas globais.

Para a carreira: por que você empreende ou trabalha?

Ter um propósito é também essencial para navegar a complexidade, volatilidade e ambiguidade em que vivemos hoje; um contexto em que estratégias mudam rapidamente e nem sempre há respostas certas ou erradas. Uma pesquisa com 474 executivos mostra que 90% deles reconhece a importância de ter objetivos e motivações bem definidas para inspirar e gerar resultados. No entanto, menos de 20% de líderes corporativos tem um propósito individual claro e poucos deles conseguem defini-lo concretamente em uma frase.

E de que forma vemos o trabalho? De acordo com Dan Pontefract, autor do livro “the Purpose Effect: Building Meaning in Yourself, Your Role, and Your Organization”, há três formas. A primeira é a orientação por retorno financeiro em que você trabalha para receber um salário e nada mais. Já a segunda é a mentalidade de carreira, orientada pelo crescimento na posição, responsabilidades, influência ou salário. Finalmente, a terceira é a mentalidade norteada por propósito, de se sentir motivado, realizado e fazendo algo que contribua para a organização da qual faz parte. Aqui, a energia se renova e é onde encontramos o flow, estado em que nos concentramos ativamente numa tarefa e alcançamos estados de satisfação profunda.

O aspecto financeiro é inevitavelmente relevante, porém trabalho deve ir além disso. Passamos a maior parte do nosso dia (e de nossas vidas) trabalhando e precisamos encontrar satisfação, inspiração e sentido no que fazemos. Pare um pouco para analisar como você encara o trabalho no dia-a-dia. Se a mentalidade financeira e de crescimento ocupam mais de 50% do seu tempo, é hora de (re)defenir o seu propósito pessoal e profissional.

Para você: Sentido e qualidade de vida

A busca por propósito é inevitavelmente um processo natural e complexo. É o que traz sentido às nossas vidas; é o que nos faz levantar todos os dias animados para correr atrás de nossos objetivos e para deixar nossa marca no mundo.

No livro “Como avaliar sua vida?”, meu ex-professor e autor Clayton Christensen afirma que ter um senso claro de propósito está diretamente relacionado com nossa felicidade pessoal. Sem motivações bem definidas, desperdiçamos nossa energia e recursos naquilo que talvez satisfaça objetivos de curto prazo, mas que não comunica com o que de fato nos importa e agrega valor. Um forte senso de propósito deve permear nossas decisões consistentemente para conseguirmos gerar valor e impacto.

De acordo com Strecher, autor do livro “Life on Purpose”, a força de um propósito de vida pode ser mensurada e envolve viver em consonância com nossos valores e objetivos, e com a vontade de deixar uma marca positiva no mundo. Pesquisas também apontam uma correlação direta entre propósito, bem estar psicológico e uma vida mais saudável. Em estudo de 2014 de Patrick L. Hill e Nicholas A. Turiano, indivíduos com propósito e sentido claros apresentaram uma longevidade significativamente maior. Ter este direcionamento reduz em até 20% o risco de infarto, AVC e doenças cardiacas, além de aumentar a resiliência cerebral em doenças como o Alzheimer.

É interessante também notar que propósito não é um artigo de luxo restrito a poucas pessoas. É uma habilidade psicológica que pode ser cultivada independentemente do grau de escolaridade ou outras condições, conforme demonstra pesquisa conduzida na Universidade de Cornell.

Definindo seu propósito e o colocando em ação

Propósito não é algo imposto, com que você simplesmente se depara ou uma visão que cruza sua mente. Também não é uma fonte única de inspiração ou algo imutável. Propósito se constrói e muda ao longo do tempo. É algo específico, pessoal e que comunica com você e apenas você.

Fácil? Com certeza não! Definir um propósito requer autoconhecimento e tempo. Abaixo, seis questionamentos para o processo de reflexão.

1. O que torna você único? O que você faz que te diferencia de outros? Qual é a sua marca?

2. O que é importante para você? O que te faz levantar animado no dia-a-dia?

3. Qual é a sua visão de carreira e de vida? Que histórias quer contar para seus netos? Qual marca você quer deixar no mundo?

4. Analisando sua trajetória, você enxerga um padrão ou tema comum que permeia suas decisões?

5. Quais experiências que te desafiaram e fizeram com que você se sentisse inspirado e fazendo algo relevante?

6. Se dinheiro não fosse importante em sua vida, o que você faria no próximo ano? E nos próximos 5 e 10 anos?

O rascunho das respostas dessas perguntas — rascunho porque elas nunca são respondidas finalmente, já que estamos sempre evoluindo e esclarecendo nossa relação como nossos valores e identidades — oferece um bom panorama sobre quem você é de verdade, longe dos padrões mais convencionais de sucesso.

Se o seu propósito ainda não está claro, não desista e continue a construi-lo. O importante é colocar em ação o que você acredita hoje, seguindo as suas motivações: articular e viver o seu propósito para uma vida com sentido e impacto.

Artigo escrito por Francine Zucco e Alex Anton

O trabalho e a felicidade: passado controverso, futuro promissor

– Eu amo o meu trabalho. Transporto as pessoas até onde elas precisam chegar e tenho a oportunidade de conversar com muita gente diferente. Posso contar sobre a minha vida e ouvir histórias e perspectivas de outras nacionalidades que nunca ouviria de outra maneira. E além disso, ganho muito mais como motorista de táxi do que como dono do pequeno restaurante que tinha um tempo atrás.

Kuala Lumpur, 12 de dezembro de 2013.

Essa declaração foi feita por um motorista de táxi indiano em Kuala Lumpur em meio a um engarrafamento caótico que afeta a cidade rotineiramente. É curioso que ele tenha revelado espontaneamente a sua paixão pela profissão em um momento extremamente estressante e que ele provavelmente enfrenta todos os dias. Você conhece alguém entusiasticamente apaixonado por seu trabalho a ponto de conseguir pensar positivamente sobre ele mesmo em situações “desagradáveis”? Aparentemente, essa espécie sempre foi difícil de ser encontrada, mas ainda não entrou em extinção (ufa!), como veremos adiante.

Data de 1949 o livro How To Avoid Work (Como Evitar o Trabalho em tradução literal), do coach de carreira William J. Reilly. Com uma dedicatória “respeitosa e com grande afeto a todos os que odeiam o seu emprego”, Reilly escreveu um guia rápido sobre como encontrar propósito no trabalho e correr atrás do que se ama. O autor desafiou as regras sociais da época — o auge das donas de casa americanas — e encorajou o seu público a buscar além de seus empregos confortáveis e convencionais. A metáfora provocante que ele usa para estimular os leitores é bastante verdadeira:

A maioria das pessoas tem a ideia ridícula que qualquer coisa que produza renda é considerada trabalho — e tudo o que fazem fora das “horas de trabalho” é diversão. Não há lógica alguma nisso. […]

Sua vida é muito curta e muito valiosa para ser desperdiçada no trabalho. Se você não se mexer agora, pode acabar como o sapo que é colocado em uma panela de água fresca sobre o fogão ligado. Com a temperatura aumentando gradualmente, o sapo se sente agitado e desconfortável, mas não a ponto de pular para fora da panela. Sem perceber que esta pode ser a sua única chance, ele gradualmente se torna inconsciente.

O que acontece com uma pessoa que faz o que não gosta é muito parecido. Ela se sente irritada no seu cubículo. Suas tarefas logo se tornam uma rotina monótona que, lentamente, anestesia os seus sentidos. Quando eu ando por escritórios, fábricas e lojas, frequentemente me pego olhando para rostos sem expressão realizando movimentos mecânicos. A mente dessas pessoas está oprimida e morrendo vagarosamente.”

OK, nem sempre foi assim. Nossos antepassados certamente nem tiveram tempo de se preocupar com a utilidade e o propósito de suas carreiras, já que estavam muito ocupados com a sua sobrevivência. Mas com a prosperidade material atingindo cada vez mais pessoas no mundo todo, entramos em uma era onde a procura por significado se tornou mais importante do que o dinheiro. Uma pesquisa de 2007(1) em seis países europeus mostrou que até 60% dos entrevistados escolheriam outra carreira se pudessem começar do zero. E 31% deles demonstraram insatisfação com o trabalho atual, sendo que um em cinco declarou que nunca trabalhou em uma posição que utilizasse suas qualidades de maneira apropriada.

Outro estudo, desta vez entre os anos de 2010 e 2012 nos Estados Unidos(2), indicou que apenas 30% da força de trabalho americana está ativamente engajada nas posições que ocupam. Ou seja, 70% não atinge todo o seu potencial, sendo amplamente subutilizada. O estudo aponta ainda o custo dos colaboradores descomprometidos e desconectados emocionalmente aos seus empregadores: de USD$450 a $550 bilhões por ano em termos de produtividade, rentabilidade, satisfação dos clientes, acidentes de trabalho e gastos relacionados ao vínculo empregatício.

Segundo o Business Talent Group, a definição de sucesso no “passado” (que não está tão longe assim, basta perguntar aos seus pais) era subir a escada corporativa através de promoções. As motivações para chegar no topo incluíam dinheiro, título e controle. Hoje em dia, a estrutura é muito mais complexa e abrange além da compensação, as paixões e o sentimento de realização, a possibilidade de crescimento profissional e de controle e flexibilidade no emprego. Outro advento que mudou a dinâmica do mercado é a tecnologia. Com a possibilidade de trabalhar fora do escritório da empresa e comunicar-se à distância, as pessoas também estão procurando por maneiras alternativas de trabalho. Um exemplo bastante claro disso é o local de onde escrevemos esse texto: um espaço de co-working chamado Hubud, na cidade de Ubud, Bali — Indonésia. Aqui, expatriados de diversos países se reúnem regularmente para discutir ideias de startups, recrutar pessoas ou simplesmente trabalhar online como freelancers ou para seus empregadores que estão baseados em algum país da Europa, na Austrália ou nos Estados Unidos. Phillipe, um cinegrafista dinamarquês, se mudou para a cidade com a família — sua mulher, fotógrafa, e seus dois filhos, que frequentam a Green School. Ele trabalha à distância e viaja quando preciso. Assim como ele, vários outros estrangeiros pensam da mesma maneira: largam tudo para se aventurar em outra cidade — ou país — que ofereça mais qualidade de vida e mais equilíbrio entre o pessoal e o profissional.

E como anda a situação no Brasil?

Uma pesquisa realizada em 2013 que ouviu mais de 4.200 profissionais de todo o país(3) concluiu que o que mais motiva os brasileiros no trabalho é ter um propósito. Em nossa investigação preliminar com 335 respondentes, aproximadamente 73% colocou a satisfação diária com o seu trabalho como um dos componentes fundamentais da definição pessoal de sucesso. O bom retorno financeiro ficou em segundo lugar, seguido do respeito dos colegas. Cerca de 58% das pessoas entrevistadas trabalha na área em que se formou, e metade delas mantém um projeto paralelo que chama de hobby. Voluntariado ou envolvimento com projetos sociais, esportes, atividades artísticas, viajar, manter um blog e até mesmo administrar uma microempresa aparecem como exemplos.

Entretanto, 46% considera-se insatisfeito com o cargo atual! Quase 65% destes declarou que deseja mudar de carreira, e cerca de 55% pensa que irá mudar no próximo ano. Será? O mesmo tanto de pessoas acha que a falta de dinheiro guardado é o principal empecilho para realizar a mudança hoje, e o medo de arriscar aparece em segundo lugar.

Dos quase 42% que procuraram outra ocupação, a remuneração não compatível com a expectativa e a pouca oportunidade de crescimento profissional aparecem como as principais razões para a mudança de carreira, e mais de 90% se diz satisfeito com a mudança. Muitas das pessoas já estavam cientes do desgosto pela profissão na faculdade, mas relatam que não tiveram oportunidade de mudar antes. Uma porcentagem significativa trabalhou na área pretendida durante o tempo de folga e fins de semana para testá-la (30%). Cursos presenciais e aulas online gratuitas foram os métodos mais utilizados como preparação para a nova carreira.

Porém, a pergunta mais interessante do questionário foi, de longe, a seguinte: “Se dinheiro não fosse uma preocupação em minha vida, eu…”. A grande maioria das pessoas respondeu que trabalharia com o que gosta, implicando que a ocupação atual não satisfaz suas ambições e paixões. Em segundo lugar aparece a resposta “viajaria, conheceria lugares e culturas diferentes”. Empatados na sequência, aparecem as declarações “seria feliz” e “trabalharia como voluntário ou algum projeto social, ajudando os outros”. Muitos pensam que teriam mais tempo para se dedicar à família, e cerca de 10% continuaria na mesma profissão.

O perigo, aqui, é usar o sonho de abrir a própria empresa, viajar ou se engajar em projetos sociais como o ópio do dia-a-dia, como diz Paul Graham, fundador da empresa Y Combinator, uma aceleradora que investe em startups. Segundo ele, encontrar um trabalho que você ama requer disciplina e muito suor. Não é uma tarefa fácil, e a maioria daqueles que faz o que gosta teve carreiras não lineares, muitas vezes percorrendo caminhos tortuosos ou ainda não trilhados, recheados de experimentação e muito sobe-e-desce. O esforço tem um objetivo maior: encontrar o seu nicho, a área em que você se sente desafiado, capaz, criativo, em flow. Um dos conselhos mais sábios de Paul é: seja produtivo! Não use a desculpa de que você não gosta do que faz para se tornar preguiçoso. É importante ter o hábito de realizar qualquer coisa de maneira bem feita. Mais do que isso: tem um hobby que gostaria de tornar profissão? Pratique, pratique, pratique. Sonha em escrever um livro mas não sabe como começar? Escreva nas horas vagas, uma página atrás da outra. O texto ficou ruim? Não importa, continue escrevendo. Produzir evita que o sonho exista apenas na nuvenzinha que rodeia a sua cabeça nos momentos em que você está fazendo de conta que trabalha na frente do computador da empresa. Torna a possibilidade tangível, além de facilitar a jornada em direção ao autoconhecimento. Você trabalharia de graça naquela atividade? Se a resposta for sim, é grande a chance de você ter encontrado uma das ocupações que lhe fará feliz.

Sim, uma das ocupações que lhe fará feliz. Isso porque é necessário esquecer a ideia de que há uma única carreira ou trabalho perfeitos. Como afirma Roman Krznaric, autor do livro Como Encontrar o Trabalho da sua Vida, é preciso identificar os seus “eus múltiplos” e a partir daí, considerar as diversas carreiras que poderiam se encaixar nos vários aspectos de sua personalidade. Mas e por que ficamos tão confusos na hora de escolher uma profissão? Como decidir entre designer e engenheiro, agrônomo e cientista? Simples: temos opções demais! Segundo o psicólogo Barry Schwartz, ficamos paralisados em frente a tantas possibilidades. Se formos capazes de escolher, entretanto, é possível que a satisfação seja pequena, já que sempre iremos imaginar que outra escolha poderia nos fazer mais feliz. A solução? Restringir as opções através de definições pessoais de sucesso e de uma carreira ideal, e então testar na prática quais delas se adaptam melhor às nossas aspirações, sugere Krznaric.

As barreiras que criamos

É verdade que muitas vezes nos encontramos amarrados por escolhas passadas. O curso selecionado para prestar o vestibular, por exemplo, pode ser um dos grandes responsáveis pela dificuldade de escapar de uma carreira insatisfatória. Afinal, você sabe que aspirações terá aos 40 anos quando ainda adolescente? Será que nos conhecemos o suficiente aos 16 ou 17 anos para saber que profissão nos trará sucesso e realização pessoal? Com tão pouca experiência de vida e do mercado de trabalho, é provável que não. E então você vasculha a internet, lê o guia do estudante, ouve seus pais e escolhe aquela que acha que será a carreira da sua vida. Estuda por quatro ou cinco anos e chega o tão sonhado dia da formatura. Encontra um emprego que considera bom, os anos passam e… onde está a realização profissional? Pensa em mudar, mas inicialmente não tem coragem. O que os outros vão pensar? Afinal, quem sou eu? Se não for chamado(a) de designer, engenheiro(a), agrônomo(a) ou cientista, de que será então? A sensação de perder a identidade, não pertencer a um grupo específico ou não ter uma afiliação pode ser desafiadora. Outra barreira psicológica que acomete indivíduos insatisfeitos com sua profissão é imaginar que todos os anos de estudo e de trabalho foram “desperdiçados” na direção errada. O custo de tempo e de dinheiro investido na carreira escolhida aos 16 pode parecer irrecuperável e limitar a iniciativa de dar um passo além. O segredo para escapar de tais armadilhas é olhar para a sua avó. Imagine-se na idade dela por um segundo: ao contemplar a vida que levou até o momento, que arrependimentos consegue enumerar? O que pesa mais: “Eu me arrependo de ter passado a vida toda sendo engenheira quando poderia ter me tornado uma designer/agrônoma/cientista de sucesso”, ou “Eu me arrependo de ter enfrentado a opinião de todos ao meu redor e arriscado a correr atrás dos meus sonhos”? Só cabe a você decidir.

Não arranje desculpas!

Mas como mudar se eu não tenho… tempo, dinheiro e/ou apoio de pessoas próximas?, você pergunta. Voltemos a 1949. Já naquela época, Reilly defendeu cada um desses pontos em seu livro:

– 24 horas por dia. Esse é o tempo que eu, você e todos os outros habitantes do planeta têm a sua disposição. A maneira como você o aproveita é uma decisão inteiramente sua. Se você passar uma hora inteira olhando para o relógio, dizia Reilly, e imaginar que daqui a 100 anos todos nós teremos desaparecido, então você irá compreender que o tempo é a única coisa que realmente lhe pertence. […] Apenas você pode decidir o que fazer com o tempo que é seu.

– Olhe para as biografias de pessoas que fizeram grandes fortunas, aconselha Reilly. O dinheiro nunca vem antes da autoexpressão, e sim após eles terem descoberto ou produzido algo significativo. […] A única segurança que você pode ter em um mundo marcado por tantas mudanças é produzir algo de valor a seus semelhantes, e a sua única garantia de felicidade é o prazer que você encontra ao produzi-lo.

– Sem dúvida nos deixamos influenciar pela opinião dos que nos rodeiam. Agora, examine os conselhos de sua família e de seus amigos. Apesar de quererem o seu bem, seus conselhos são baseados em suas próprias experiências, que possivelmente estão conectadas a situações diferentes daquela que você está enfrentando, escreve Reilly. Não há nada mais sem graça do que uma pessoa consciente e vacilante que não é nem quente nem fria, seca ou molhada, porque ela está sempre se perguntando o que os outros pensam dela e está sempre tentando agradar a todos.

OK, você sacou a ideia, certo? Está insatisfeito, tomou coragem e pensa seriamente em mudar de carreira.

Mas… por onde começar?

Roman Krznaric acredita que, antes de tudo, você deve definir qual das seguintes opções acredita que deve seguir baseando-se em sua personalidade: especialista ou generalista. Em outras palavras, você gostaria de ser um expert em apenas uma área ou de desenvolver a sua carreira abrangendo várias áreas diferentes? Dotados de aspectos de personalidade e interesses diversos, é bastante grande a possibilidade de que muitos de nós alcance a realização quando a segunda opção é considerada. Quem disse que temos que seguir apenas um ou outro caminho? Porque não considerar ambos e dividir o tempo dedicado na exploração de cada um deles? Outra opção é seguir uma carreira seriada, desenvolvendo uma ocupação após a outra. A não ser que deseje se especializar, há um mundo de opções esperando por você. Os passos de Leonardo da Vinci, que foi pintor, engenheiro, inventor, cientista, filósofo e músico, podem sim ser percorridos nos tempos atuais — por que não? O mundo dos freelancers, entre outros, está de portas abertas aos aventureiros que contemplam a experimentação.

Diversas autoridades como Hermínia Ibarra, autora de Identidade de Carreira, e Richard Bolles, autor de Qual a Cor do Seu Paraquedas?, recomendam uma estratégia relativamente fácil de ser realizada: entrevistas informativas. Que tal contatar o amigo do primo do irmão do seu namorado que é terapeuta para saber quais os desafios que ele enfrenta no dia-a-dia? Ou quem sabe o conhecido do pediatra do seu filho que trabalha com arte? Visitar o local de trabalho alheio e passar um dia na vida de um profissional que você almeja ser pode ser esclarecedor. Outra atividade altamente recomendada pelos gurus da área é testar projetos paralelos ao seu emprego. Você se interessa por pilates? Comece a dar aulas no seu tempo livre! Gosta de palestrar sobre um assunto específico? Marque um dia com amigos e teste o seu domínio de público. Ama culinária? Faça cupcakes nos fins de semana, quem sabe não surge a oportunidade de abrir o seu próprio negócio? Ambas as abordagens, menos arriscadas por possibilitarem que você mantenha o trabalho atual e se dedique ao projeto paralelamente, são de fato bastante viáveis. Para os mais corajosos, há também uma opção mais ousada: um sabático de vários meses ou um ano dedicados exclusivamente à experimentação. Apesar de exigir um planejamento financeiro e logístico um pouco maior, ou, no mínimo, uma mente aberta às novidades e à insegurança do processo, é uma maneira bastante peculiar de se autodescobrir. Sean Aiken fez exatamente isso: graduou da faculdade e passou 52 semanas viajando pelos Estados Unidos e experimentando uma ocupação por semana para descobrir quais seriam os seus próximos passos. Tudo o que ele conseguiu arrecadar foi doado ao final da aventura. Instrutor de bungee jump, bombeiro, padeiro, piloto da força aérea, professor de jardim de infância, prefeito… a lista de profissões experimentadas é longa.

Aproveitando o gancho, não podemos deixar de sustentar aqui a nossa crença de que viajar é uma maneira divertida e interessante de se autoconhecer. Sair de sua zona de conforto — especialmente com o orçamento apertado e no melhor estilo mochileiro — e aprender a enfrentar o novo, o inusitado e as surpresas que a estrada inevitavelmente traz, imergindo em um contexto antes inimaginado é um processo de descobrimento único e valioso. Não precisa ir longe, desde que você aproveite a experiência para interagir com pessoas diferentes, aprender sobre culturas, hábitos e línguas diversas e refletir sobre o mundo e sobre você mesmo. É grande a chance de você voltar com as perspectivas ampliadas, a mente mais aberta e, vai que acontece?, uma ideia inovadora para sua nova carreira.

Palavras de ordem: experimentar, verificar, ensaiar, tentar…

Independentemente da maneira que você encontre para testar os seus limites, gostos e motivações, a mensagem é clara: coloque a mão na massa! Teste atividades diferentes, analisando em seguida os momentos e as habilidades que lhe dão a sensação de flow, prazer, realização. Comece a colocar o sonho em prática. Converse com pessoas, faça a sua pesquisa de campo. Além de descobrir mais sobre outras profissões e sobre você mesmo, você estará construindo a sua rede — algo extremamente importante para, quem sabe, descolar uma posição na área de interesse no futuro. Preste atenção no ambiente ao seu redor, mas nunca se esqueça de olhar para dentro. Apesar da relação entre o trabalho e a felicidade ter um passado controverso, o futuro só será promissor se agirmos hoje. Afinal, como já dizia sabiamente Howard Thurman: “Não pergunte o que o mundo precisa. Pergunte o que lhe faz sentir vivo, e então vá fazê-lo. Porque o que o mundo precisa é de pessoas que se sintam vivas.”

Artigo escrito por Alex Anton e Daiana Stolf, em Janeiro 2014

Recursos úteis:

Livros

Como Encontrar o Trabalho de Sua Vida, Roman Krznaric

Faça Acontecer, Sheryl Sandberg

Flow: The Psychology of Optimal Experience, Mihaly Csikszentmihalyi

Identidade de Carreira, Herminia Ibarra

Manage your day-to-day: Build your routine, find your focus and sharpen your creative mind, Jocelyn K. Glei

Qual a Cor do Seu Paraquedas?, Richard Bolles

Status Ansiedade, Alain de Botton

The Creative Habit, Twyla Tharp

The Happiness Hypothesis, Jonathan Haidt

The Pathfinder, Nicholas Lore

Projetos

99 Jobs

http://99jobs.com/

Continue Curioso

http://continuecurioso.cc/

Escape the City

http://www.escapethecity.org/

Life Swap

https://thelifeswap.com/

One week job

http://www.oneweekjob.com/

http://www.youtube.com/watch?v=VcMyX5R4dzs

Rework

http://rework.jobs/

The Muse

http://www.themuse.com/

Referências

(1) OPP, Unlocking Potential. Dream job or career nightmare?, 2007

http://www.opp.com/en/resources/our-research#.Ut9nT_awqt8

(2) Gallup, Inc. State of the American Workplace: Employee engagement insights for U.S business leaders, 2013

http://www.gallup.com/strategicconsulting/163007/state-american-workplace.aspx

(3) Walk and Talk, LeadPix Survey — Pesquisa e Inteligência de Marketing, Cristina Panella Planejamento e Pesquisa. Propósito e motivação. Como encontrar satisfação no trabalho?, 2013

http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-que-te-motiva/2013/08/08/proposito-e-motivacao-como-encontrar-satisfacao-no-trabalho/