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Jobs to be Done: entendendo a dor do usuário por uma nova ótica

Era fevereiro de 2013 e eu cursava o quarto e último semestre do meu MBA na Harvard Business School quando me deparei com a teoria que mudou minha forma de enxergar e trabalhar com desenvolvimento de produtos. Como parte do curso Building and Sustaining a Successful Enterprise (BSSE), o professor Clayton Christensen nos apresentou a Jobs to be Done, uma ferramenta que nos permite entender exatamente por que estamos “contratando” produtos e serviços. Dos mais de 500 cases e ferramentas de gestão estudados em 2 anos de curso, a Jobs to be Done me marcou profundamente e vale uma revisita a este legado do incrível professor Christensen.

A teoria Jobs to be Done foi desenvolvida inicialmente pelo professor Clayton Christensen da Harvard Business School e seus colegas Scott Cook e Taddy Hall. Christensen é um renomado autor e palestrante na área de inovação e é conhecido por seu trabalho sobre a teoria da inovação disruptiva.

A ideia de Jobs to be Done surgiu quando Christensen e seus colegas estavam estudando por que algumas empresas bem-sucedidas, como a Kodak, fracassaram ao tentar se adaptar às mudanças no mercado e a outras tecnologias emergentes. Eles descobriram que muitas empresas se concentram demais em características e benefícios de produtos e serviços existentes, em vez de se concentrarem nas necessidades fundamentais dos clientes.

A partir dessa pesquisa, Christensen e seus colegas começaram a desenvolver a framework Jobs to be Done, que se concentra em entender os “trabalhos” que os clientes estão tentando realizar em suas vidas e como as empresas podem atender a essas necessidades de forma mais assertiva. A teoria rapidamente ganhou popularidade em muitos setores, incluindo tecnologia, onde é amplamente utilizada para orientar a inovação e o desenvolvimento de novos produtos e serviços.

Importante destacar os aspectos funcionais e emocionais da Jobs to be Done. A dimensão funcional se concentra nas necessidades práticas dos clientes, enquanto a dimensão emocional se concentra nas necessidades mais profundas e subjetivas dos clientes, como suas motivações, sentimentos e desejos.

A dimensão funcional da Jobs to be Done envolve identificar os trabalhos específicos que os clientes estão tentando realizar e os obstáculos que enfrentam ao tentar concluir esses trabalhos. Isso pode incluir coisas como encontrar uma solução para um problema específico, cumprir uma obrigação ou tarefa, ou alcançar um objetivo específico.

Por outro lado, a dimensão emocional da Jobs to be Done envolve compreender as motivações, sentimentos e desejos subjacentes dos clientes. Isso pode incluir coisas como o desejo de se sentir seguro, confortável ou conectado a outras pessoas. Ao entender essas necessidades emocionais, as empresas podem criar soluções que atendam às necessidades profundas e subjetivas dos clientes, criando uma conexão emocional com eles e portanto aumentando sua defensibilidade perante a concorrência.

Para aplicar a ferramenta Jobs to be Done, as empresas precisam entender quais são os trabalhos específicos que seus clientes estão tentando realizar e como seus produtos e serviços podem ajudá-los a realizar esses trabalhos de forma mais eficiente ou eficaz. Isso envolve conversar com os clientes, observá-los usando os produtos e serviços existentes, e analisar os dados para entender o comportamento do cliente.

Por exemplo, o Airbnb entendeu que muitas pessoas procuravam acomodações autênticas e únicas que lhes permitissem vivenciar a cultura local durante suas viagens. Eles projetaram uma plataforma que conecta os viajantes com anfitriões locais que oferecem acomodações únicas e personalizadas em todo o mundo, atendendo ao trabalho específico que seus clientes estavam tentando realizar. O funcional é encontrar um lugar para dormir enquanto estiver viajando, o emocional é viver experiências surpreendentes e criar memórias únicas, o que poucos hotéis conseguem entregar.

Outro exemplo é a Dropbox, que entendeu que muitas pessoas procuravam uma forma segura e conveniente de acessar e compartilhar arquivos de qualquer lugar e dispositivo. Eles projetaram uma plataforma de armazenamento em nuvem que permite aos usuários sincronizar arquivos em todos os seus dispositivos e compartilhar arquivos facilmente com outras pessoas, atendendo ao trabalho específico que seus clientes estavam tentando realizar. Neste caso, o aspecto funcional é muito mais relevante do que o emocional, no entanto oferecer uma experiência fácil, simples e esteticamente elegante contribui para encantar o usuário no aspecto emocional.

Aqui no Brasil, gosto sempre de lembrar do exemplo do iFood, onde trabalhei como estrategista. No aspecto funcional, o óbvio é que o iFood é contratado para saciar a fome. Porém, e mais importante, descobrimos que (emocionalmente) o iFood é contratado para realizar o trabalho de permitir mais tempo ao usuário, evitando que ele tenha que sair de casa ou preparar alimentos em sua cozinha, o que resulta em mais tempo de qualidade em relacionamentos afetivos. O funcional é tipicamente mais fácil de ser substituído (ex. um lanche improvisado, uma ida a padaria da esquina, comida congelada), porém o emocional costuma trazer vantagens mais duradouras, especialmente se combinado a uma ótima experiência do usuário. Como saciar a fome e precisar de mais tempo de qualidade com pessoas queridas são necessidades recorrentes, temos aqui um modelo de negócios maravilhoso.

Para os interessados, vale a leitura dos artigos e livros do professor Christensen, especialmente o artigo “Know your customer’s Jobs to be Done” e o livro “The Innovators Dilemma“. Mais importante do que isso, reflita profundamente sobre o que você e sua empresa estão fazendo e responda: para qual trabalho estão sendo contratados?

Resiliência: o quê, por que e como

“Mais do que educação, mais do que experiência, mais do que treinamentos, o nível de resiliência de um indivíduo determinará quem terá sucesso e quem se perderá pelo caminho. Isso é verdade para pacientes com câncer, é verdade para atletas olímpicos, e é verdade para executivos e empreendedores na sala de reunião”, afirma Dean Becker num artigo de 2002 da Harvard Business Review. Resiliência, portanto, é a habilidade de controlar sua resposta a situações física ou mentalmente estressantes. A ciência mostra que quanto mais resiliente o indivíduo é mais longe ele irá na sua vida pessoal e profissional. Faz sentido. Sucesso é a o reflexo de inúmeras quedas e derrotas que foram encaradas como oportunidades de aprendizado e crescimento.

Na minha experiência convivendo e trabalhando com indivíduos extremamente talentosos – em Harvard, na Nestlé, na McKinsey, na Fullbridge e pelo mundo – fica claro que os mais interessantes são aqueles que passaram por adversidades as vezes pesadas e tiveram força para se reerguer ainda maiores. Eles tem uma energia interna contagiante, empatia e humanidade ao mesmo tempo que demonstram força e determinação certeira. Exemplo? Liz Kwo, minha colega e co-coach no programa que recentemente concluímos em Shanghai pela Fullbridge: nascida em Taipei de mãe solteira, pobre, imigrou ilegalmente aos Estados Unidos com a mãe e a irmã quando ainda bebê. Em San Francisco, onde chegaram de navio, moravam numa garagem enquanto a mãe suava em empregos simples para trazer comida pra “casa”. Ela tinha tudo pra dar errado na vida, mas hoje suas paredes ilustram diplomas da Stanford, Harvard Medical School e Harvard Business School, simplesmente as melhores instituições de educação do mundo. Como? Porque ela sabia que sua única chance seria através da educação e mérito, o qual ela demonstrou sempre sendo a aluna mais engajada, curiosa e determinada. Escutando ela falar fica claro que sua jornada não foi fácil ou romântica, mas ela diz “toda vez que eu me sentia como uma perdedora, alguém marcado para falir, viver na pobreza e ser uma vítima de um mundo injusto e cruel eu fechava os olhos e lembrava que o esforço da minha mãe tinha que valer a pena, e aí eu liberava a fera dentro de mim”. É inspirador escutar isso dela, ainda mais porque suas palavras saem sem dor ou rancor; ela conta sua história com orgulho, suavidade, humanidade ilustrada com vulnerabilidade e determinação para continuar em frente.       

 Claramente, o indivíduo resiliente não é aquele que evita stress de toda e qualquer forma, mas sim aquele que aprende como controlá-lo e transformá-lo em energia produtiva. A pessoa resiliente provavelmente entortará, mas não quebrará, quando confrontada com adversidade, traumas, tragédias e ameaças. Ela é, na maior parte do tempo, ativa e não passiva em relação ao o que acontece a seu redor e em sua vida, sempre acreditando ser autora do seu presente e futuro, e não uma vítima do seu passado.

Bom, mas felizmente muitos de nós não passaram por situações dramaticamente impactantes que balancem nossos valores e nos façam questionar nossa missão no mundo, o que frequentemente se ouve de gente extremamente resiliente (já ouviu a história de alguém que sobreviveu um grave acidente ou doença?). Então, o que fazer se sua vida é confortável e relativamente linear? Os cientistas Steven Southwick e Dennis Charney, da Yale University School of Medicine, recomendam 4 estratégias comprovadas cientificamente para dar um boost em sua resiliência:

Trabalhe com seu físico: fisiologicamente, atividade física moderada promove a liberação de endorfina e dos neurotransmissores dopamina e serotonina, os quais reduzem sintomas de depressão e melhoram o humor. Um experimento com animais mostrou que correr frequentemente diminui fobias diversas e aumenta a coragem para exploração de novos ambientes. O recomendado é uma hora e 15 minutos por semana de atividade aeróbica intensa como corrida e natação, ou duas horas e 30 minutos de atividades moderadas como caminhada, por exemplo.

Aceite desafios e saia da zona de conforto: dar uma passo além do que você normalmente faria, seja nas férias, no final de semana, ou no trabalho, estica sua zona de conforto e potencialmente aumenta sua segurança. Não há limites e cada um sabe o que isso significa para si, mas pode ser vencer um medo, fazer uma apresentação num idioma novo, explorar um outro país com poucos recursos e infraestrutura, ou começar a dizer não ao invés de sempre se moldar para agradar os outros.

Medite, e desenvolva uma visão positiva do mundo: meditar frequentemente pode lhe trazer clareza, foco e facilitar a priorização de onde investir sua energia. Meditar lhe conecta com o presente, evitando lamentações sobre o passado e preocupações excessivas com o futuro. Isso comprovadamente reduz o stress e lhe permite maior controle sobre sua vida e decisões, lhe tornando uma pessoa mais segura e determinada.

Amigos & relações humanas: finalmente, a última tática para aumentar resiliência o estimula a passar mais tempo com pessoas com as quais você demonstra aceitação, respeito e admiração mútua. Só funciona, no entanto, se você estiver realmente conectado aquela pessoa e poder contar com ela para conselhos, dicas ou apenas um ombro amigo. Ajuda se sua network for recheada de indivíduos que são exemplos de resiliência em pessoa, pois você terá role models a observar e seguir. Imitar comportamentos e práticas que deixam os outros mais fortes também pode ser de alto valor. Por exemplo, quando estiver desanimado e pronto pra desistir vale lembrar que existe uma “fera” dentro de cada um de nós, como diria minha colega Liz.

Finalmente, escrever sua história ciente de que você é autor e protagonista, de que você decide gastar mais tempo comemorando pequenas vitórias do que lamentando sobre como o mundo é injusto com você, aumenta sua motivação, determinação, produtividade e, ultimamente, felicidade. É por isso que as universidades e empresas mais concorridas do mundo esperam escutar histórias de superação e resiliência em seus processos seletivos. Dado tudo isso, eu pergunto a você, leitor, e também a mim mesmo: qual o próximo capítulo?

Zona de descomforto: sobre viver no exterior, e as 10 lições mais importantes que o estrangeirismo me ensinou

Foram 73.680 horas, 3.070 dias, ou 8 anos e 5 meses. Foram não, ainda são, porque todavia não tenho endereço fixo no Brasil e continuo na estrada. Bem, mas serão, porque a passagem de volta já está marcada e contratos de trabalho já foram assinados em território tupiniquim. Enfim, quase 9 anos de estrangeirismo estão chegando ao fim, e como o fim de qualquer ciclo vale parar, refletir e reconhecer o que aprendi de mais importante nesse período tão especial e transformador da minha vida. Cabe também se (re-)emocionar — rir e, por que não, chorar — com as passagens mais marcantes dessa viagem longa, linda, saborosa, mas também por vezes fria, solitária e confusa, que hoje define quem sou eu.

Saí do Brasil pela primeira vez em 2003. O destino era Potsdam, na Alemanha, e a justificativa, um estágio acadêmico num instituto de pesquisa de ponta. Foi a recompensa pelo intercâmbio de high school, aqueles que a gurizada faz durante o segundo grau, que tanto queria realizar cinco anos antes mas que não teve a aprovação dos meus pais. A explicação racional era uma experiência profissional que pudesse enriquecer meu currículo, a emocional, e mais autêntica, era a realização de um sonho de viver e viajar pelo mundo, mesmo que fosse por apenas 3 meses. Foi o primeiro grande passo nessa jornada que culminou com dois anos de estudos, e muito aprendizado, num outro lugar grande demais pra caber nos sonhos do moleque de 20 anos que embarcou medroso e com lágrimas nos olhos naquele vôo para a Alemanha: o mestrado em business na Harvard Business School.

Entre chegar em Potsdam em 2003 e receber o canudo de Harvard em 2013 passaram-se uma série de eventos e experiências que me fazem sentir tanto orgulhoso quanto sortudo. Orgulhoso por reconhecer que foi fruto de suor — físico e mental — e muito otimismo; sortudo por também reconhecer que muito do que me aconteceu não estava no meu controle, e que sem o apoio de pessoas e instituições que guardo na memória e no coração, não teria acontecido. Bom, corro o risco de transformar este texto numa autobiografia narcisista e detalhada, então peraí, a ideia aqui é compartilhar o que experienciei e as lições ali aprendidas, imaginando que esse aprendizado possa ser traduzido em ideias de aplicação quase universal. Ideias que podem lembrar você, leitor, e eu mesmo, das riquezas, belezas e potencial que libertamos quando gastamos energia, tomamos coragem, respiramos fundo e saímos da nossa zona de conforto. Ideias que também me lembram o quão acessível, inspirador e infinitamente criativo é o mundo. E a vida.

Crianças indonesianas brincando em Lombok

1. Pare de se enrolar e vá logo! O universo e, principalmente, você, farão que tudo dê certo uma vez que a decisão de partir tenha sido tomada e você se veja independente e sem amarras para fazer acontecer. Parafraseando o navegador brasileiro Amyr Klink, “pior que não terminar uma viagem é nunca partir”. Faz sentido, mas como é difícil dar o primeiro passo. Pessoalmente, o momento mais difícil, aquele que me faz tremer nas bases e repensar o porquê de tudo isso é sempre no check-in e despedida da família no aeroporto. Ah, como dói! E com isso, infelizmente, a gente não se acostuma. Todas as vezes o mesmo aperto no peito, a mesma energia magnética me prendendo a minha terra e aos meus. Mas uma vez que o avião decola, livre e independente eu vou. Os medos e ansiedades que ora me assombravam se transformam em oportunidades únicas de descobrimento. Tudo parece fluir, me sinto presente, forte e capaz de encarar qualquer desafio, e mesmo o que dá errado se transforma numa boa história para contar.

2. Eu v3.0. Longe da zona de conforto voltamos aos valores mais básicos, e nos reinventamos muito mais facilmente. Essa mesma energia magnética que me prende ao único lugar que realmente posso chamar de casa, ou também de zona de conforto, é também aquela que me prende a rótulos, limitações e paradigmas impostos por mim e pela sociedade ao meu redor. Longe do meu contexto é muito mais fácil experimentar estilos de vida, pessoas e opções profissionais que de outra forma não fariam parte do que nos é “possível”. Por exemplo, quando embarquei para Londres em 2004 tinha uma vida relativamente fácil e confortável em Florianópolis, típica de um jovem de classe média. Estava longe da minha independência financeira e trabalhar duro significava estudar e dar conta do estágio em iniciação científica. Em Londres, no entanto, rapidamente entrei em outra frequência: trabalhava de garçom, barman, lavador de pratos e ainda entregador de cartas em até 3 lugares diferentes no mesmo dia. Pagava minhas contas e comprava minha comida, voltando a um estilo de vida tão básico que questionei se realmente precisava comer carne, cujo custo era altíssimo em relação a uma dieta vegetariana. Desde então me tornei vegetariano, e carrego na bagagem essa forma de enxergar o mundo: examinando o que realmente preciso e o que naturalmente assumo como “normal” dados os valores e normas da sociedade.

3. O mundo está de portas abertas! Existem inúmeras possibilidades de estudar e viajar no exterior de forma barata. No geral, qualquer trabalhador da classe média pode, com esforço e planejamento, estudar, trabalhar ou viajar em praticamente qualquer país do mundo. Também achava que viajar era um privilégio dos endinheirados, ou de gente que rala muito e após 10 anos de suor consegue passar uma semana em Nova Iorque. Não é. Com curiosidade e determinação é possível ir muito longe, e gastando pouco. EUA e Europa são lugares caros para se viajar. Mesmo assim é possível dormir em albergues com quartos coletivos a $20–35/noite; viajar de trem ou ainda mais barato, de ônibus; e comer a comida local comprada em mercados e servida em parques, praças, museus ou no próprio albergue. Em lugares mais distantes e por isso mais caros de chegar, como a Ásia, um viajante econômico consegue sobreviver com $10 dólares por dia, incluindo cama e comida. Uma vez na estrada, oportunidades para economizar ou fazer uns trocados podem aparecer: trabalhar no albergue em troca de cama e café da manhã, dar aulas de inglês ou português, trabalhar a distância como freelancer (principalmente se você manda bem em TI), e por aí vai.

Já estudar fora exige mais pesquisa e planejamento, mas a experiência será mais duradoura e impactante. São inúmeras as possibilidades de bolsas de estudo, principalmente para mestrado e doutorado, para brasucas no exterior. Histórico escolar forte e atividades extracurriculares que enriqueçam o c.v. são muito importantes para se conquistar uma vaga em universidades de primeira linha, mas com esforço e visão qualquer um pode chegar lá. Eu não sabia disso, e aprendi através da tentativa e erro. Fui felizardo por ter sido aceito para meu mestrado no Canadá, em 2006, com uma bolsa que cobria os custos da universidade e meus gastos com manutenção básica: tinha uma cama confortável e me alimentava sempre em casa ou carregava marmitas (sempre sem carne ;-)), mas não sobrava muito. Com o tempo descobri várias outras oportunidades de aumentar a receita: concorri a prêmios e bolsas de caráter meritocrático e dobrei meu salário! Dicas de como encontrar essas oportunidades dariam um livro, mas se tivesse que compartilhar apenas uma, seria: pesquise as universidades que sejam fortes na sua área de experiência ou interesse, listando 10 escolas em ordem de prioridade; vasculhe o site de cada universidade em busca de scholarships para international students, e entre em contato com o admissions office, eles poderão esclarecer pontos que em princípio parecerão ultra-confusos. Uma vez que esse mapa inicial esteja pronto, procure professores, amigos ou conhecidos que tenham estudado fora, apresente seu plano, e peça feedbacks. A partir daí, com um pouco de suor e paciência, acredite, tudo dará certo!

4. O passaporte tupiniquim. Brasileiros são recebidos com muita alegria em todo o mundo. Talvez nossos hermanos argentinos torçam um pouco o nariz, mas mesmo assim o farão com um sorriso no rosto; o resto do mundo, porém, abrirá um sorriso caloroso ao ouvir a palavra Brasil. Interessantemente, quanto mais longe do país, maiores esses sorrisos. Há pouco o passaporte brasileiro me descolou dois mergulhos gratuitos na Tailândia e uma refeição autêntica e calorosa com uma família no Mianmar. Também somos sortudos por precisarmos de visto para poucos países: indianos e chineses, por exemplo, não entram na Europa continental ou Reino Unido sem visto de turista. Ouvi de uma indiana que quando ela escutou a palavra Brasil sair da minha boca imaginou cores, sorrisos, música e muita alegria. Que assim seja!

5. Viajar e morar no exterior nos torna mais criativos!

A exposição a formas diferentes de interagir e interpretar a vida e o mundo nos livra de preconceitos e nos torna mais abertos a aceitar o novo ou o diferente. Essa exposição também mexe com a imaginação, produzindo ideias e possibilidades antes limitadas por preconceito ou medo de errar. A interação com outros povos e culturas nos torna mais criativos, e a ciência, felizmente, valida esse ponto. O professor William Maddux, da escola de negócios europeia INSEAD, estudou a influência de experiências internacionais no perfil de altos executivos, e suas conclusões são extremamente encorajadoras para aqueles com sede de mundo. Ele afirma “seu nível de criatividade aumenta significativamente se você estiver imerso em experiências locais e, particularmente, idiomas. Existe uma associação muito forte entre a habilidade de falar idiomas diversos e criatividade. Portanto, indivíduos que falam dois ou três idiomas são, em geral, mais criativos.” O mesmo estudo relaciona criatividade a empreendedorismo, o que torna o pacote ainda mais atraente!

6. & flexíveis, e empáticos, e resilientes

Além de criatividade, outros aspectos universais de cidadania e liderança são flexibilidade, empatia e resiliência. No estrangeiro nunca pude me dar ao luxo de exigir que as coisas funcionassem, ou as pessoas pensassem e agissem da maneira que eu gostaria ou achava certo. Eu era o diferente, e assim sempre fui forçado a questionar se o que eu em princípio achava estranho era universalmente errado ou apenas diferente. Por exemplo, na Suíça tive que me adaptar a confirmar a presença em churrascos e jantares de amigos com 4 semanas de antecedência, e aprender que não aparecer num desses eventos confirmados é ofensa grave. Na Indonésia, tive que aceitar que reuniões marcadas e confirmadas para o horário X horas não começam antes de X + 30 minutos. Fora da zona de conforto seguimos a teoria Darwiniana de “adaptar-se ou morrer”. Como consequência, naturalmente nos tornarmos mais empáticos com o outro, desenvolvendo a capacidade de se sentir no papel de outra pessoa, e assim entendê-la e respeitá-la mais facilmente. E finalmente, resiliência, a capacidade de persistir e superar desafios. Independentes e longe daqueles que normalmente nos ajudariam, ou daqueles que diriam que não adianta nem tentar porque é difícil demais, ou ainda das nossas próprias desculpas e máscaras, reconhecemos rapidamente que cabe a nós mesmos persistir e, por que não, aspirar cada vez mais longe. Quando terminei o mestrado em Winnipeg, no Canadá, me mudei para Toronto e “testei” como seria fazer o doutorado na University of Toronto, a melhor do Canadá e entre as 20 melhores do mundo. Tinha sido aceito e premiado com uma bolsa de estudos competitiva, e isso era motivo de orgulho para mim e minha família. O problema é que esse “teste” deu negativo; eu não gostei da rotina do laboratório e não me imaginei feliz pelos próximos 4 anos. Decidi encarar o mercado de trabalho e buscar oportunidades na indústria de alimentos no Canadá. Apliquei para mais de 100 empregos, fiz 4 entrevistas, e nada. Nenhuma das vagas era o emprego dos sonhos, mas seriam boas o suficiente. Após um final de semana com amigos em Montreal me bateu a luz: por que eu estou buscando oportunidades apenas aqui se existe o mundo inteiro? E na mesma noite de domingo vasculhei a Internet e me candidatei à vaga de trainee na empresa de alimentos mais respeitada do mundo, no seu país de origem: Nestlé, na Suíça. Já que as opções mais fáceis e acessíveis, e também mais medíocres não estavam dando certo, por que não tentar o que existe de melhor? Na segunda-feira de manhã recebi uma ligação da recrutadora marcando uma entrevista por telefone. Passei pela segunda peneira, e em seguida veio o convite para participar do processo seletivo completo em Vevey, na Suíça. Só a perspectiva de uma semana gratuita na Europa já fez com que tudo valesse a pena, mas o melhor ainda estava por vir. Deu certo, e a consequência foram quase 3 anos de aprendizado no coração da Europa!

7. Aspirações comuns. No nível mais primitivo, todos dividimos os mesmos sonhos, medos, preconceitos e aspirações. Dos meus colegas de apartamento em Londres — imigrantes ilegais suando para mandar uns trocados a suas famílias no Brasil ou na África — a meus colegas mais abastados de Harvard, cujas famílias exibem patrimônio pra lá dos 12 dígitos, concordo com o psicólogo Abraham Maslow que todos buscamos segurança, aceitação social, respeito num nível mais avançado, impacto e sensação de contribuição a algo maior. Claro, esses elementos se manifestam de forma diferente em pessoas distintas, mas a mensagem é que todos estamos aqui atrás da mesma felicidade que vai além do que é tangível e material. Quanto mais conhecemos povos diferentes, mais nos sentimos parte de um mesmo universo, e problemas que antes pareciam distantes das nossas vidas, como a poluição dos rios na China, por exemplo, passam a fazer parte da nossa agenda. Afinal, reconhecemos que tudo é interdependente, e o que afeta uma parte do planeta gera consequências para todo o demais.

8. Questionar & aprender: autoconhecimento. Não há opção: lá fora questionamos o tempo inteiro, e isso reflete em autoconhecimento aumentado. Tudo é diferente e por sermos forçados a nos adaptar, passamos a não julgar o diferente como simplesmente “errado”, e sim a questionar o porquê dessa diferença. Além de flexibilidade, como mencionado acima, esse questionamento frequente o leva a também interrogar o que lhe deixa mais feliz, quais são seus pontos fortes (e fracos), e o que gostaria de mudar no mundo. Essa busca não é fácil ou romântica, e o resultado de ter seu autoconhecimento alavancado pode ser uma mudança radical de vida ou carreira. Foi assim que a minha transformação aconteceu: de cientista a gerente de projetos, coach, e a um profissional com interesses diversos que se nega a ser rotulado com apenas um título. A busca é contínua, e o processo sempre é mais interessante do que o resultado final.

9. Todos os sentidos acordados. O escritor inglês Edwin Abbott Abbott escreveu em seu brilhante livro de 1884 Flatland: A Romance of Many Dimensions uma analogia que acredito refletir bem o que é viver no exterior:

A esfera resolve viajar e conhecer um lugar chamado Flatland, ou Terra Plana. Lá tudo existe em apenas duas dimensões, e a esfera assusta-se ao perceber que todos a percebem como apenas um círculo, e não uma esfera com 3 dimensões: altura, largura e profundidade. Frustrada, ela tenta explicar para o quadrado o que é o mundo em 3 dimensões, mas ele não entende. Já impaciente, a esfera finalmente resolve trazer o quadrado consigo na sua viagem de volta ao mundo 3-D, para que enfim ele possa ver e sentir o que ela insiste em explicar. O quadrado, ao chegar no mundo 3-D, fica perplexo: “um pavor indescritível tomou conta de mim. Em princípio foi a escuridão; depois uma sensação de estar enxergando sem realmente ver; eu vi espaço que não era espaço; eu reconheci a mim mesmo, e não me reconheci. Quando achei minha própria voz, gritei alto “isso é loucura total ou o Inferno!”. “Não é nenhum dos dois”, calmamente respondeu a esfera, “isso é conhecimento, é o mundo em 3 dimensões: abra seus olhos novamente e tente olhar com calma.” “Eu olhei e, magicamente, um novo mundo se descortinou.”

Viver no exterior é sim cansativo, mas é viver em 3 dimensões frequentemente. Quase não existe rotina já que o potencial de descoberta e aprendizado é próximo ao infinito. Viver em 3-D é estar presente, sentindo o cheiro do ar, o sabor dos alimentos, e o prazer da descoberta e do aprendizado. Por outro lado, na zona de conforto é muito fácil deixarmos a rotina, os compromissos, ou até mesmo o tédio tomar conta do nosso universo e reduzi-lo àquele encontrado em Flatland.

10. Você, autor. Viver no exterior é sentir, todos os dias, que estamos escrevendo nossa própria história. É tomar decisões que são mais guiadas pelo coração e pela razão do que pela opinião dos outros. É acumular riqueza intangível porque amontoar bens materiais desnecessários pode lhe dar dor de cabeça na próxima mudança de cidade ou país. É escrever e reescrever sua história, ciente de que você é autor dela, e não apenas um produto do seu passado.

Ufa, a lista foi longa! Ainda, essas lições se conversam entre si uma vez que na vida tudo acontece de forma integrada. Antes de fechar o texto, no entanto, vale mencionar os motivos que justificam minha volta, já que defendo fortemente as benesses de morar no estrangeiro. Volto porque acredito que no Brasil poderei ter mais impacto, ver mais valor no meu trabalho, e manter e estabelecer relações humanas que também definem quem eu sou. Sinto-me privilegiado por encontrar um país que busca e valoriza profissionais com experiências similares às que passei, e honestamente, também sinto a obrigação de compartilhar essas experiências, e continuar aprendendo, com os meus. Os planos de curto prazo estão bem definidos, mas o que virá depois ainda está a ser escrito. Em português.

Artigo originalmente escrito por Alex Anton e publicado em 2013 na Harvard Business Review Brasil.